Presidente da Tanzânia diz que as pessoas que fazem contraceção são preguiçosas

John Magufuli incentivou mais uma vez a população a ter filhos: "Não vejo qualquer necessidade de fazer controlo de natalidade"

Maria João Caetano
John Magufuli, presidente da Tanzania© REUTERS/Sadi Said

O presidente da Tanzânia, John Magufuli, voltou a sublinhar a sua oposição a todos os métodos contracetivos e incentivou a população do seu país a reproduzir-se. Num discurso em Meatu, o presidente alertou a população para não dar ouvidos àqueles que aconselham o uso de contraceção, muitos dos quais são estrangeiros, porque têm "motivos sinistros".

"Vocês, pessoas de Meatu, têm gado. São bons agricultores. Conseguem alimentar os vossos filhos. Porque optariam por fazer controlo de natalidade? Este é o meu ponto de vista, mas eu não vejo qualquer necessidade de fazer controlo de natalidade na Tanzânia", disse. Magufuli. Na sua opinião, as pessoas que usam métodos contracetivos são preguiçosas pois não querem trabalhar para alimentar uma família grande.

Magufuli explicou que nas suas viagens pela Europa pôde constatar como as políticas de planeamento familiar conduzem à diminiuição da mão-de-obra e ao envelhecimento da população. Pelo contrário, na Tanzania, existem políticas de apoio à família e o presidente congratulou-se pelo investimento feito na saúde materna e na construção de novos hospitais.

De acordo com o jornal The Citizen, não há qualquer indicação de que o governo vá alterar a legislação no que toca ao planeamento familiar, no entanto há esse risco. "Da nossa experiência, sempre que o presidente faz uma declaração sobre um assunto, na prática essa declaração é tomada como lei, por isso, podemos esperar por consequências", comentou Judi Gitau, coordenador regional da associação Equality Now. E no caso de haver um passo atrás nas políticas de planeamento familiar essa alteração terá um impacto devastador nos direitos das mulheres, conclui: "Teremos mulheres com filhos não planeados e famílias grandes e sem capacidade de se sustentar."

Também Petrider Paul, ativista para a igualdade de género na Tanzânia, comentou ao The Guardian que estas declarações do presidente podem contribuir para diminuir ainda mais a liberdade das mulheres: "Toda a questão da contraceção na Tanzânia é uma decisão do homem. Uma mulher não pode tomar a decisão de tomar um contracetivo sem a autorização do homem", explicou. "Agora muitos homens vão argumentar que o presidente lhes disse para terem mais filhos."

Esta não é a primeira vez que o presidente da Tanzânia faz declarações deste tipo. Em 2016, depois de o ensino ser tornado gratuito no país, Magufuli declarou: "As mulheres já podem deitar fora as pílulas, a educação é gratuita". E no ano passado também declarou que todas as raparigas que engravidassem não poderiam continuar na escola.