Pai-de-santo do Congresso prevê "ano da besta"

Roberval Uzeda, místico que circula há anos pelos corredores de Brasília, alerta para os perigos de 2016 na política brasileira. Em 2015, acertou ao recomendar que Dilma Rousseff se protegesse do presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha

João Almeida Moreira
Roberval Uzeda, natural do Rio de Janeiro, gosta de se identificar como escritor e crítico. Candidato a deputado estadual em 2014, teve 108 votos© D.R. - Facebook

"O ano de 2016 vai ser o da besta na política brasileira", sentenciou Roberval Uzeda, ou pai Uzeda, a autoridade paranormal informal do Congresso Nacional, em Brasília. Uzeda, de 50 anos, é uma figura folclórica, levada a sério por uns e na brincadeira por outros. Uma coluna que trata dos bastidores da política do portal UOL resolveu ouvi-lo e arrancou aquela frase enigmática. Mas se o místico não especificou quem é a besta ou outros detalhes, não custa tentar adivinhar que se refere a Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados.

Em 2015, Uzeda, um pai-de--santo ou babalorixá, o nome atribuído às autoridades máximas nos terreiros onde se praticam cultos religiosos afro-brasileiros, alertara Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), para os perigos que Cunha, do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), então recém-eleito líder dos Deputados e mais tarde revelado principal rosto de oposição à presi- dente do Brasil e pivô do pedido de impeachment, representava.

O místico dissera na ocasião o seguinte: "O Eduardo Cunha é a besta, o trabalho dele é destituir a Dilma, ele é um pai-de-santo de mão-cheia, ele entende de canjerê [ritual religioso afro-brasileiro], basta olhar para a aura dele, se deixarem ele vai ser o presidente do Brasil."

Nesse dia, Uzeda, que costuma passear-se no Salão Verde e nos corredores da Câmara dos Deputados a entregar cartões a oferecer os seus serviços aos parlamentares, conseguiu introduzir-se no quarto andar do Palácio do Planalto, um acima daquele onde fica o gabinete de Dilma, com autorização de uma funcionária que o conhecia, para entregar uma carta à presidente a alertar para os perigos de Cunha. Passados 30 minutos foi convidado a retirar-se, revelando, porém, o conteúdo da carta a jornalistas presentes. Uma vez que os seus orixás acertaram em cheio nas previsões, outros repórteres o procuraram este ano.

Roberval Batista Uzeda, nascido em março de 1965 no Rio de Janeiro, é solteiro e identifica-se oficialmente como "escritor e crítico". Nas eleições de 2014 concorreu a deputado estadual no Rio pelo Partido Progressista (PP), da coligação governamental, mas obteve uns meros 108 votos.

A propósito das eleições de 2014, Uzeda previu acertadamente uma vitória do PT mas "no processo eleitoral mais conturbado da história do Brasil", o que veio a verificar-se com a eleição tangencial de Dilma sobre Aécio Neves, do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). Fora da política, porém, Uzeda falhou redondamente. "Se jogar com toque de bola, o Brasil vai ser campeão do mundo de futebol", disse meses antes da goleada de 7-1 que a Alemanha impôs à seleção da casa nas meias-finais do Mundial.

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