"O nosso nome agora é Haddad"

Lula passa o testemunho ao vice-presidente por carta. E Haddad discursa, pela primeira vez como candidato, em frente à cadeia onde está o antigo presidente

João Almeida Moreira
© REUTERS/Rodolfo Buhrer

"É hora de sair à rua de cabeça erguida e ganhar essa eleição", disse Fernando Haddad, no seu primeiro discurso enquanto candidato oficial do PT, substituindo Lula da Silva, impedido de concorrer por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, ao abrigo da Lei da Ficha Limpa, que impede candidaturas de condenados em segunda instância.

"Eu sinto a dor dos brasileiros que não podem votar no homem que queriam ver a subir a rampa, é a dor dos mais pobres, é a dor do povo brasileiro que durante tantos e tantos anos não teve acesso a um prato de comida, à dignidade, à universidade", continuou Haddad, num discurso de improviso em frente à superintendência da polícia federal, em Curitiba, em cuja cela está, desde há cinco meses, Lula, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro.

"O Lula representou um antes e um depois porque ele enfrentou todos os obstáculos que a vida lhe impôs e que são, ainda hoje, enfrentados por muita gente neste país", disse ainda o candidato do PT, que foi ministro da Educação nos governos de Lula e no primeiro de Dilma Rousseff.

"Depois do Governo Lula pensei que o Brasil estaria de vez fora do mapa da fome, bastaram dois anos para que o Brasil voltasse", acusou.

"Qual foi o crime de Lula? Estender a mão aos pobres? Permitir que pobres estudassem na universidade? Permitir que o negro se sentasse num avião? O que incomodou foi que um homem sem diploma conseguiu, por inteligência e gana, fazer o que eles não conseguiram em 500 anos. Nós não queremos mais o Brasil do século XVIII e XIX".

Terminado sob os cânticos das cerca de duas centenas de militantes do partido que gritaram "Brasil urgente, Haddad presidente".

Minutos antes, fora lida por um militante antigo do partido, Luiz Eduardo, uma "carta ao povo brasileiro" escrita pelo punho do próprio Lula. Lá, o antigo presidente disse que "o poder judicial do Brasil quis prender e privar não só eu mas o projeto que o povo aprovou nas últimas quatro eleições consecutivas e que só foi derrubado por um golpe". "Não, nós continuamos vivos no coração do povo", completou.

Para finalizar com a passagem formal de testemunho: "Estou indicando a minha substituição pelo Fernando Haddad. Haddad, como ministro da educação do meu governo, foi responsável por uma das mais importantes transformações do nosso país, juntos abrimos as portas da universidade para quatro milhões de alunos de escolas publicas, negros, indígenas, filhos de trabalhadores, ele é o coordenador do programa de governo e será o meu representante nesta batalha, o nosso nome agora é Haddad, todos os que votariam em mim que votem no companheiro Haddad para presidente da República".

O partido tomou a decisão de nomear Haddad, após uma reunião da sua cúpula em Curitiba, a mesma cidade onde Lula está preso.

O dia da apresentação foi escolhido por ser o último do prazo legal dado pelo Tribunal Superior Eleitoral para a substituição de candidatos. Em paralelo, o PT equacionava ainda mais um recurso no Supremo para poder prorrogar o prazo, iniciativa considerada arriscada por poder levar ao cancelamento da candidatura.

Também ajudou à decisão a divulgação há algumas horas da sondagem do Instituto Datafolha, em que o novo candidato já aparecia com 9% dos votos, distante dos 24% de Jair Bolsonaro (PSL), mas ainda assim o dobro da anterior pesquisa e em empate técnico com os segundos classificados.

Fernando Haddad, professor de ciência política de 55 anos, licenciado em direito, com mestrado em economia e doutoramento em filosofia, foi eleito prefeito de São Paulo, em 2012, cumprindo uma gestão considerada moderna para alguns e desconectada da realidade para outros. Perderia, em 2016 a reeleição para ficar então na reserva de Lula, caso o antigo presidente não pudesse concorrer.

Manuela D'Ávila, do Partido Comunista do Brasil, que faz parte da coligação em torno do PT. com apenas 37 anos, será a vice-presidente de Haddad. Eleita aos 25 anos vereadora de Porto Alegre, um recorde nacional, e hoje é deputada estadual no estado do Rio Grande do Sul.

A Manu, como é tratada, e a Haddad competirá agora tornar seus os quase 40% de votos que Lula valia nas sondagens em que fora incluído.