Nos guetos onde os imigrantes se sentem estigmatizados

Em algumas áreas urbanas daquele país nórdico designadas oficialmente por "guetos" há residentes que se sentem estigmatizados e excluídos da sociedade. Governo tem desde março plano para fomentar a integração.

Helena Tecedeiro
Em Mjolnerparken, no centro de Copenhaga, um gueto assim chamado em homenagem ao martelo do rei Thor, Mjolnir, mais de quatro em cada cinco residentes têm origens não ocidentais e quase metade não tem emprego© REUTERS/Andrew Kelly

A Dinamarca é o único país a classificar formalmente algumas zonas residenciais como guetos. Uma área encaixa nesta categoria se mais de metade dos habitantes forem originários de países não ocidentais e se se cumprir outros critérios, tais como ter uma taxa de desemprego acima dos 40%.

"Quando os jornalistas vêm aqui quero falar sobre as coisas boas, mas eles não estão interessados. Estão interessados em gangues, conflitos e guetos. Deixa-me triste", explica Salim El-Chahabi, um palestiniano que veio para a Dinamarca em 1999 e trabalha como coordenador laboral em Mjolnerparken, um gueto de Copenhaga. Só umas poucas pessoas provocam o caos, o resto dos habitantes são pessoas boas, educadas e próximas da família. Infelizmente, umas poucas pessoas estragaram tudo para nós."

Há décadas que a Dinamarca procura a melhor forma de integrar os seus imigrantes no Estado social. O debate público intensificou-se em 2015 com a chegada de grandes grupos de refugiados vindos do Médio Oriente e do Norte de África. O Partido Popular Dinamarquês, anti-imigração, tornou-se a segunda maior formação no Parlamento nesse ano.

No passado mês de março, o primeiro-ministro Lars Lokke Rasmussen, do Partido Liberal, anunciou um plano destinado a fomentar a integração dos imigrantes e a eliminar os guetos - uma palavra que é igual em dinamarquês - até 2030. As medidas incluem proibir criminosos de se mudarem para estas áreas, duplicando as penas a quem cometer um crime num gueto, e destruindo algumas zonas antes de as voltar a construir.

O plano foi recebido de forma mista em Mjolnerparken, no centro de Copenhaga, um dos 25 guetos dinamarqueses - um termo com origens na Veneza do século XVI e usado para descrever certas áreas da cidade às quais os judeus estavam confinados.

Alguns residentes de Mjolnerparken acham que o plano do governo pode melhorar as suas comunidades ao reduzir o crime e aumentar as perspetivas de emprego, mas outros temem que simplesmente aprofunde as divisões ao criar sociedades paralelas onde se aplicam regras diferentes. "Vai ajudar, sim, mas acredito que também vai ter efeitos negativos", afirma El--Chahabi, de 50 anos.

A Dinamarca designa oficialmente algumas áreas como guetos desde 2010, locais onde identifica ser necessário dar mais atenção à integração dos residentes. "A descrição oficial faz que as crianças se associem a uma vida de crime e dinheiro rápido", garante Khosrow Bayet, de 55 anos e origem iraniana, que veio para a Dinamarca há mais de três décadas e lidera o Sjakket, um clube de ocupação de tempos livres para as crianças das escolas dos guetos de Copenhaga.

Em Mjolnerparken, assim chamado em homenagem ao martelo do rei Thor, Mjolnir, mais de quatro em cada cinco residentes têm origens não ocidentais e quase metade não tem emprego.

"Fui a um médico quando era mais jovem com uma dor de costas e ele perguntou se o meu marido me espancava, e eu exclamei: "Claro que não!"", explica Umm-Meyounah, de 37 anos e mãe de duas crianças. Dinamarquesa, esta casou-se com um imigrante do Médio Oriente. "É com isto que temos de lidar o tempo todo. Passamos o tempo a explicar que não somos espancadas em casa e que não somos terroristas."

Jornalista da Reuters