Nasceu o Podemos brasileiro. Agora segue-se a Geringonça

Partidos reorganizam-se a pensar em 2018. E há novas teorias e terminologias baseadas nos modelos espanhol e português

João Almeida Moreira

Chama-se Podemos mas não é espanhol, é brasileiro. Será lançado hoje em Brasília mas não se trata do nascimento de um novo partido, apenas de um renascimento. Usa o nome de uma força da esquerda mas identifica-se com causas caras à direita, eventualmente ao centro-direita. No meio de uma crise que pode derrubar o segundo presidente da República em dois anos, a política do Brasil reorganiza-se, através de nomenclaturas e ideias à europeia, tendo em conta as eleições de 2018. Porque além do Podemos, há quem fale na Geringonça.

O Podemos é o novo nome do Partido Trabalhista Nacional (PTN), onde militava Jânio Quadros, eleito presidente do Brasil em 1960. Nos últimos anos, fez parte da coligação que elegeu Dilma Rousseff, do PT, em 2010 mas já apoiou Aécio Neves, do PSDB, em 2014. Aliado do governo de Michel Temer (PMDB), foi o primeiro a sair após as delações do empresário Joesley Batista envolvendo o presidente. O novo nome surgiu após pesquisas de opinião e inspira-se mais no bordão de campanha de Barack Obama "Yes We Can" [Sim, Nós Podemos] do Partido Democrata dos EUA do que no Podemos ibérico de Pablo Iglesias.

Nas vésperas da cerimónia de "batismo", o Podemos obteve duas importantes adesões - a de Álvaro Dias, senador ex-Verdes e ex-PSDB, ao que tudo indica candidato à presidência da República em 2018, e do também senador Romário (ver caixa ao lado), de saída do PSB e concorrente ao cargo de governador do Rio de Janeiro nas mesmas eleições. Um e outro votaram a favor do impeachment de Dilma, no ano passado.

Com estes reforços, o Podemos, que enquanto PTN só contava com 13 deputados, passa a ter representação no Senado, como se congratulou ao DN a presidente do partido Renata Abreu. "Foi um trabalho de dois anos para convencer políticos limpos de que não se trata só de uma mudança de nome mas de um projeto sólido, não nos baseamos no Podemos espanhol em termos ideológicos mas identificamo-nos sim com ele, e com outros, na forma de comunicação direta com as pessoas, hoje não há direita, esquerda, centro, há causas debatidas a cada instante nas redes sociais".

Se o Podemos brasileiro não tem ideologicamente a ver com o homónimo espanhol, está em embrião uma nova frente partidária próxima da experiência no país vizinho. Composta por integrantes do PSOL, força mais à esquerda do Congresso, do PT e de movimentos sociais variados procura encontrar soluções, com ou sem Lula como candidato em 2018.

Mas um dos mais destacados quadros do PT nos encontros, Tarso Genro (ver caixa) não vê como objetivo das reuniões criar um novo partido, inspirado no Podemos espanhol. "Acho que a nossa analogia é mais com o que ocorre em Portugal", afirmou, referindo-se à Geringonça. Ao DN, o antigo ministro disse que "a comparação com Portugal é adequada para um país como o Brasil, porque o caminho escolhido pelos partidos do campo da esquerda em Portugal foi o da "concertação" pontual, para reverter, a partir de passos conscientes e moderados, a destruição do Estado Social exigida pela troika, sem desestabilizar a relação com a União Europeia".

"Isso tem dois significados para países que são reféns dos devedores, como o Brasil: recupera a densidade da política, como busca de alternativas ao reformismo "liberal-rentista", com saídas originárias da soberania popular, e bloqueia a anulação do Estado Social, sem retirar o país das relações com a comunidade global, sem as quais iria para o isolamento".

PERFIS

Romário

› Membro do Podemos

› Senador

› Tem 51 anos

› Ex-futebolista

› O melhor futebolista do planeta em 1994, segundo a FIFA, é a mais mediática aquisição do Podemos. Eleito deputado federal, em 2010, e senador, em 2014, pelo PSB, trocou agora de partido porque a nova força "participa de forma direta com a sociedade e não se identifica com a velha política", justificou. Presidente do comando estadual do Rio de Janeiro do Podemos, Romário deve concorrer a governador do seu estado de nascimento, a passar por grave crise financeira, já em 2018. Visto com desconfiança no início da carreira política, tem convencido muitos críticos pela assiduidade às sessões e pela dedicação à causa dos portadores de síndrome de Down.

Tarso Genro

› Membro do Partido dos Trabalhadores

› Ex-ministro

› Tem 70 anos

› Advogado e professor

› Governador do Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil, entre 2011 e 2014, depois de ter sido prefeito duas vezes da capital do estado Porto Alegre, ocupou três ministérios durante a presidência de Lula da Silva, o da Educação, o das Relações Institucionais e o da Justiça. Nos últimos anos tem exigido do seu partido, o PT, uma autocrítica pelos erros cometidos durante a gestão do país e lamentado certa deriva à direita dos seus governos. Membro da ala mais à esquerda do partido, vem mantendo reuniões com o PSOL (considerado de extrema-esquerda) e movimentos sociais pensando em 2018. E vê, afirma, a Geringonça portuguesa como modelo ideal para o Brasil.

Em São Paulo