Na era do #MeToo, o Playboy Club vai voltar

Hefner disse que as "coelhinhas" eram um símbolo do passado", mas um dos seus filhos vai trazer tudo de volta: as mulheres, os fatos, o clube, e isto num tempo em que as denúncias de assédio sexual estão na ordem do dia

Paula Freitas Ferreira
 | foto Reuters
Cooper Hefner, um dos filhos do fundador da Playboy, foi dele a ideia de reabrir o Playboy Club, em Nova Iorque.  | foto D.R.

Há 30 anos, Hugh Hefner, o criador da Playboy, declarou que as "coelhinhas" eram um símbolo do passado, mas um dos seus filhos não concorda e decidiu ressuscitar não só as Playmates, como o bar onde estas serviam, nos anos 60, bebidas sofisticadas à elite nova-iorquina. Um novo Playboy Club vai abrir portas, este sábado, 15 de setembro, e promete ser um lugar com uma "estética sexy e sofisticada" e "repleto de anfitriãs sedutoras", de acordo com o comunicado da empresa.

O novo espaço é inaugurado 32 anos depois do encerramento do Plaboy Club original e está situado no lado oeste de Manhattan, a pouco mais de dois quilómetros do primeiro clube, e a escassos quarteirões do lugar onde milhares de pessoas participaram na "Marcha das Mulheres", em janeiro, recorda o The Guardian.

No anos 60, o Playboy Club foi um ícone da revolução sexual: um bar cheio de glamour, onde mulheres bonitas serviam bebidas a homens, mas também a casais, um espaço exclusivo frequentado pela elite de Nova Iorque. As "coelhinhas", com os seus fatos minúsculos, ainda não eram vistas como um símbolo da exploração sexual feminina.

Os tempos mudaram, o assédio sexual tem feito manchetes, o movimento #MeToo destronou nomes grandes da indústria cinematográfica, atravessou fronteiras, está na ordem do dia. Mas é neste tempo que as Playmates irão voltar. Há um misto de surpresa e incredulidade, não só no atrevimento, como no facto de 44% dos sócios que já se inscreveram no clube serem mulheres.

A quota para ser membro do clube pode chegar aos 250 mil dólares (cerca de 215,6 mil euros) e ao New York Post uma fonte do novo negócio revelou que já foram vendidos cerca de 2,2 milhões de dólares (1,9 milhão de euros) em adesões. Os sócios terão acesso ao jato privado da Playboy com o símbolo da marca e a 15 noites no clube, que tem à disposição 30 quartos para os seus membros.

E sim, as coelhinhas da Playboy estarão de volta - com orelhas e rabos de coelho -, mas os fatos serão assinados pelo designer de alta costura Roberto Cavalli.

"O espaço contará com uma área de salão, uma sala de jogos e uma sala de jantar com serviço completo, mas a característica mais atraente do Playboy Club de Nova Iorque será sem dúvida o regresso da Coelhinha da Playboy a Manhattan", sublinha o comunicado.

A ideia de ressuscitar o mítico clube é de Cooper Hefner, de 26 anos e um dos filhos do criador da Playboy. Cooper, que é diretor criativo da Playboy Enterprises, foi sempre contra as tentativas de "amaciar" a exposição da mulher que a empresa adotou nos últimos anos, como nas revistas - onde já não aparecem nus integrais - e mostrou-se contra a venda da mansão Playboy, após a morte de Hugh Hefner, em setembro do ano passado, defendendo que a casa representava a alma da marca.

Apesar do aparente sucesso nas vendas de adesões ao clube, as críticas são muitas. Clark Wolf, um consultor de restauração em Nova Iorque, disse que a ideia de reabrir o Playboy Club é "totalmente surda" à luta atual pela igualdade de género.

"Há uma luta amarga, em todos os níveis da sociedade, entre os homens de meia-idade que querem recuperar o poder e o controlo", disse Wolf ao Guardian.

O primeiro Playboy Club foi inaugurado em Chicago em 1960 e logo surgiram réplicas em cidades como Miami, Dallas, Denver e San Diego. O clube de Nova Iorque abriu portas em 1962. Nessas décadas, os membros só podiam entrar nos clubes mediante a apresentação da famosa chave preta e dourada da Playboy.

Os clubes foram um sucesso, apesar das condições de trabalho serem péssimas para as "coelhinhas". A ícone feminista Gloria Steinem disfarçou-se de Playmate no clube de Nova Iorque e mais tarde contou que foi forçada a fazer um exame ginecológico e um exame de sangue para testar se sofria de alguma doença sexualmente transmissível. Os fatos eram desconfortáveis, o pagamento era baixo e os homens "lascivos", escreveu Steinem.

Os clubes de Nova Iorque, Los Angeles e Chicago foram os últimos a fechar, em 1986.