Milhares de pessoas saem às ruas contra "viragem ditatorial" de Duterte

Presidente filipino prometeu assinar um pacto para acabar com o conflito separatista muçulmano na ilha de Mindanao

Artur Cassiano
O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte© EPA/MARK R. CRISTINO

Milhares de filipinos saíram esta segunda-feira às ruas em protesto contra o que designam de "viragem ditatorial" e os abusos de poder do polémico Presidente Rodrigo Duterte, numa manifestação em que foi pedida a sua destituição.

No mesmo dia em que o Presidente fez o discurso sobre o Estado da Nação, associações de estudantes, sindicatos, organizações feministas, grupos religiosos e ativistas dos direitos humanos juntaram-se num enorme protesto contra a gestão de Duterte.

Os cartazes exibidos pelos manifestantes mostravam caricaturas de Duterte, exigiam justiça pelas "execuções extrajudiciais" na violenta guerra antidrogas e criticavam a política externa de aproximação à China, a quem consideram que estão a ser vendidas as Filipinas.

"O país já sofreu demasiado com este governo. Estamos aqui a lutar pelos direitos fundamentais dos filipinos, estamos a lutar pela vida", disse à Efe uma estudante de 19 anos da Universidad Ateneo, que pediu para não ser identificada.

Os manifestantes concentraram-se ao longo da manhã no 'campus' da Universidade das Filipinas, no distrito de Quezon, e seguiram até à igreja de San Pedro onde segundo dados da polícia se terão juntado 15.000 pessoas.

Além de gritarem, em inglês e tagalo - uma das principais línguas das Filipinas -, contra o Presidente, há dois anos no cargo, alguns ativistas queimaram uma máscara com o rosto de Duterte e outros apresentaram-se amordaçados e caracterizados com sangue e feridas, para recordar as vítimas da campanha antidrogas.

Segundo as organizações de direitos humanos, além de 4.200 mortos em operações policiais, há que contabilizar 23.500 homicidios que estão a ser investigados, dos quais entre 12 a 15.000 serão assassinatos encobertos pelo clima de impunidade da campanha antidrogas.

De acordo com Cristina Palabay, secretária-geral da organização não-governamental Karapatan, os "programas de contrainsurreição do regime de Duterte" não acontecem apenas nos subúrbios das cidades, onde o problemas das drogas é mais sangrento, mas também chegam às comunidades rurais e indígenas.

Esse "assédio ao povo" implica, em números, que "o regime de Duterte mata uma média de duas pessoas por semana e prende 20 pessoas", disse Palabay.

Os grupos feministas também se destacaram no protesto, com numerosos cartazes que repudiam as atitudes misóginas e "repugnantes" de Duterte.

No discurso do Estado da Nação, o Presidente filipino comprometeu-se a, num prazo de 48 horas, assinar um pacto para acabar com o conflito separatista muçulmano na ilha de Mindanao, palco de um dos confrontos mais duradouros da região.

"Prometo solenemente que este Governo nunca negará aos nossos irmãos e irmãs muçulmanos os instrumentos legais básicos para traçar o seu próprio destino dentro da estrutura constitucional do nosso país", afirmou Duterte.

O Presidente, de 73 anos, disse ainda que o seu controverso combate contra as drogas "está longe de terminar" e garantiu que permanecerá "tão implacável e assustador como no primeiro dia".

"Se acham que eu posso ser dissuadido de continuar esta luta com os vossos protestos estão errados. Vocês preocupam-se com os direitos humanos. Eu preocupo-me com vidas humanas", afirmou, dirigindo-se aos ativistas que se manifestaram nas ruas.