México vira à esquerda e Trump felicita Obrador

Andres Manuel López Obrador, líder do partido Morena, venceu as presidenciais deste domingo no México com 53%. O presidente dos EUA, Donald Trump, já lhe deu os parabéns, através da sua conta de Twitter

Patrícia Viegas
Andres Manuel Lopez Obrador acena aos apoiantes após o fecho das urnas na Cidade do México© REUTERS/Carlos Jasso

A vitória do candidato do partido Morena - Movimento Nacional de Regeneração - põe fim a nove décadas de alternância no poder entre políticos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e do Partido de Ação Nacional (PAN). O primeiro, partido do presidente cessante Enrique Peña Nieto, tinha como candidato José Antonio Meade, o segundo apresentou-se no escrutínio encabeçado por Ricardo Anaya. Ambos reconheceram já a derrota.

Esta não foi a primeira vez que AMLO, como é conhecido, se candidatou à presidência do México. Fê-lo nas eleições de 2006 e 2012. Conseguiu a vitória à terceira e, segundo os primeiros dados, 53% dos votos expressos. Apelidado por uns de socialista progressista, por outros de nacionalista revolucionário, Andres Manuel López Obrador, de 64 anos, define-se como um teimoso que quer combater a corrupção, a pobreza e a violência no país com 120 milhões de habitantes.

Durante a campanha, prometeu ainda estreitar laços com os EUA, algo que acontece numa altura de grande crispação entre as autoridades norte-americanas e mexicanas por causa da política migratória da Administração do presidente Donald Trump. O chefe do Estado dos EUA já felicitou, entretanto, Obrador pela vitória. Através do Twitter. Como é seu hábito. "Parabéns a Andres Manuel López Obrador por se tornar o próximo presidente do México. Anseio por trabalhar com ele. Há muito para ser feito que irá beneficiar tanto os Estados Unidos e o México!"

No discurso de vitória, AMLO, que tomará posse apenas no dia 11 de dezembro, declarou: "Com o governo dos EUA procuraremos uma relação de amizade e de cooperação para o desenvolvimento, com base no respeito mútuo e na defesa dos nossos emigrantes".

Obrador apelou à união dos mexicanos. "Peço a todos os mexicanos que ponham em segundo plano os interesses pessoais por mais legítimos que sejam. Há que dar prioridade ao interesse superior", afirmou, classificando o dia das eleições como "histórico" e constatando que "uma maioria decidiu iniciar a quarta transformação da vida pública no México". E garantiu: "Não apostaremos em construir uma ditadura, nem aberta, nem encoberta". Prometendo: "Haverá liberdade empresarial, de expressão, de associação e de crenças. Escutaremos todos, atenderemos todos, respeitaremos todos, mas daremos prioridade aos mais humildes e esquecidos, em especial aos povos indígenas".

Algumas propostas de Obrador, mais ousadas, geraram alguns receios a nível internacional. O líder do Morena prometera, entre outras coisas, aumentar o salário mínimo, facilitar o acesso à internet para todos, oferecer bolsas de estudo aos estudantes, aumentar a autossuficiência alimentar do país, duplicar as pensões de idosos nos 32 estados do México. Além disso, garantiu que vai vender o avião presidencial, que vai tornar a residência do chefe do Estado num centro cultural e que vai continuar a viver no seu apartamento na Cidade do México.

Afirmando que vai respeitar a autonomia do Banco do México, bem como os compromissos contraídos com bancos e empresas nacionais e internacionais, AMLO tentou afastar o fantasma do candidato radical e antissistema. E prometeu luta sem tréguas contra a corrupção. "Se encontrarmos anomalias que afetem o interesse nacional, recorrer-se-á ao Congresso e aos tribunais nacionais e internacionais. Sempre pela via legal". E concluiu: "Será um governo do povo e para o povo".