May enfrenta rebelião de 80 deputados dos Tories contra o seu plano para o Brexit

Boris Johnson, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Theresa May, diz que a primeira-ministra conservadora tenciona pôr "um colete suicida" à volta da Constituição britânica e "entregar o detonador a Bruxelas"

Patrícia Viegas
Primeira-ministra britânica, Theresa May, líder dos Tories, à chegada esta segunda-feira ao N.º10 de Downing Street | foto  EPA/FACUNDO ARRIZABALAGA
Opositor do brexit manifesta-se em frente ao Parlamento do Reino Unido | foto EPA/NEIL HALL

O governo de Theresa May e todo o processo do brexit poderão vir a ser postos em causa se deputados do próprio Partido Conservador da primeira-ministra britânica decidirem rebelar-se contra o seu plano para a saída do Reino Unido da União Europeia, ou seja, a chamada proposta de Chequers.

O alerta vem de Steve Baker, ex-vice-ministro para o brexit, que se demitiu em julho, precisamente por estar contra a proposta aprovada pelo governo conservador numa tensa reunião em Chequers, sudeste de Inglaterra, nesse mesmo mês. Essa contempla um plano de brexit mais suave, que passa por propor à UE a criação de uma zona de comércio livre de bens após o brexit, o que evitaria controlos aduaneiros, mantendo aberta a fronteira com a República da Irlanda.

Segundo explicou Baker, em declarações à Press Association, cerca de 80 deputados dos Tories - em 315 - poderão votar contra aquela proposta. O ex-governante antecipa, por isso, que a conferência do Partido Conservador, prevista para entre os dias 30 de setembro e 3 de outubro, será bastante tensa.

"Se chegamos à conferência com ela a achar que a proposta de Chequers vai passar com o apoio do Labour, penso que os negociadores da UE irão perceber que estamos arrumados, que os Tories sofreriam a cisão que tanto se tem tentado evitar. Estamos a chegar a um ponto em que é extremamente difícil ver como podemos salvar os conservadores de uma divisão catastrófica se a proposta de Chequers for para a frente. Não tenho qualquer prazer em admitir isto", admitiu Baker, alertando para o perigo que é a chefe do governo conservador achar que consegue aprovar o seu plano para o brexit com o apoio (incerto e volátil) da oposição trabalhista liderada por Jeremy Corbyn.

As declarações de Baker surgem dois dias depois de o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, que também se demitiu pelas mesmas razões do governo de Theresa May, ter acusado a primeira-ministra de tencionas pôr "um colete suicida" à volta da Constituição britânica e "entregar o detonador a Bruxelas". Num artigo publicado no Mail on Sunday, o ex-chefe da diplomacia britânica classifica a proposta de Chequers como "patética".

Um porta-voz de Theresa May, citado pela Reuters esta segunda-feira, disse que a líder britânica quer ter fechado o acordo do brexit com a UE no próximo mês de outubro. Isto depois de o negociador-chefe do brexit na Comissão Europeia, o francês Michel Barnier, ter afirmado, no mesmo dia, que espera um acordo dentro de seis a oito semanas. Segundo a mesma agência noticiosa, os líderes da UE vão anunciar na próxima semana a realização de uma cimeira dedicada à saída do Reino Unido da UE, para a data de 13 de novembro.