Líder catalão rejeita proposta de Sánchez e insiste num referendo

Quim Torra diz que o debate da sociedade catalã não é sobre o estatuto e que "só um referendo de autodeterminação acordado, vinculativo e reconhecido internacionalmente" pode renovar o mandato expresso pelos catalães a 1 de outubro.

Susana Salvador
Em palco, ao lado de Quim Torra estava um laço amarelo, símbolo dos independentistas presos. Do outro lado, havia uma bandeira catalã© REUTERS/Albert Gea

O presidente da Generalitat, Quim Torra, rejeitou a proposta do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, sobre a realização de um referendo sobre mais autonomia, lembrando que o debate da sociedade catalã não é esse. "Só um referendo de autodeterminação acordado, vinculativo e reconhecido internacionalmente" pode renovar o mandato expresso pelos catalães a 1 de outubro, afirmou numa conferência no Teatro Nacional da Catalunha.

Torra considerou ainda assim "interessante" que o governo espanhol faça agora essa proposta, reconhecendo que "a crise institucional provocada pela sentença [do Tribunal Constitucional] contra o Estatuto" e que "reconheça que a solução virá pela via política e democrática". Mas, avisou, "o debate na sociedade catalã não é sobre um estatuto", defendendo por isso "um referendo de autodeterminação, sem ameaças, sem violência". Um referendo que seja o culminar de um "debate aberto e sincero sobre os benefícios ou prejuízos da independência".

O presidente da Generalitat propôs ainda aos catalães a realização de uma "marcha pelos direitos civis, sociais e nacionais da Catalunha", num dos vários eventos que estão a ser planeados para as próximas semanas na Catalunha.

"Faço uma proposta ao povo da Catalunha sob um mote simples: liberdade ou liberdade", disse Torra, lembrando as grandes marchas de Martin Luther King e propondo a realização dessa "marcha de cidadãos que tomam a livre determinação de ser um povo constituinte". E pediu que haja uma "ampla mobilização" para essa marcha, que deve ser "diversa e multitudinária". Torra quer recuperar as ruas e as marchas que marcaram o referendo independentista de há quase um ano.

A conferência intitulava-se "O Nosso Momento" e servia para Quim Torra, que foi ovacionado durante vários minutos quando entrou no Teatro Nacional da Catalunha, analisar a situação política da Catalunha e apresentar os planos do movimento independentista para os próximos meses, naquele que se espera ser um "outono quente".

"Esta conferência não é um protesto, mas uma proposta. Com presos políticos, exilados e milhares de catalães investigados e acusados, a hora é grave", afirmou Torra, falando no momento para "parar e analisar onde estamos na causa justa da independência da Catalunha".

O presidente da Generalitat, que no palco esteve acompanhado só por uma bandeira da Catalunha e por um laço amarelo (símbolos dos independentistas detidos), disse esperar que a sua conferência lance "um debate sobre queremos que seja o futuro da nossa nação".

"Houve uma tentativa planeada de destruir o projeto independentista, mas o povo da Catalunha resistiu a e nossa causa é mais respeitada do que nunca pela comunidade internacional", afirmou Torra, lembrando que o ponto de partida é o referendo independentista de 1 de outubro. "Mas não demos um único passo atrás", acrescentou, dizendo que o povo catalão é "maduro e plural e não se deixou cair na chantagem".

A meio do discurso em catalão, Torra passou para o castelhano e dirigiu-se "a todos aqueles que partilham a nossa luta pela liberdade, mas também a todos aqueles que não a partilham". O presidente da Generalitat garantiu que "o povo da Catalunha nunca se afastará da via democrática, pacífica e do escrupuloso respeito pelo direito de autodeterminação dos povos, assim como da defesa dos direitos civis de todos os cidadãos".

"Oferecemos sempre, oferecemos hoje e vamos fazê-lo no futuro uma e outra vez, diálogo e negociação, se quiserem parar os abusos e as arbitrariedades, se quiserem libertar os presos políticos e aceitar o regresso dos exilados, se quiserem reconhecer e tornar efetivo o direito de autodeterminação do povo da Catalunha", afirmou Torra, citando depois o ex-presidente dos EUA, John F. Kennedy: "Que nunca negociemos por medo, mas que nunca tenhamos medo de negociar."

Ainda em castelhano, o presidente da Generalitat lançou: "Não queremos vencedores nem vencidos, procuramos uma vitória partilhada", reiterou. "É hora de dialogar, escutar, negociar e arriscar", lançou.

Em relação aos processos judiciais que envolvem vários líderes independentistas, Quim Torra disse que só aceitará a absolvição.

"É inimaginável uma sentença que condene os presos políticos ou exilados catalães. Pessoalmente, não posso aceitar, nem aceitarei uma sentença que não seja a absolvição", afirmou, dizendo que se não for essa a decisão dos juízes, então estudará que decisões tomar e ficará à disposição do Parlamento catalão.

"A justiça europeia deixou em evidência a perseguição política do governo da Catalunha de tal forma que o Supremo Tribunal se viu forçado a retirar todos os mandados de detenção europeus", lembrou.