Lee Keum-Seom esperou 68 anos para reencontrar o filho

Mais de 80 sobreviventes da guerra que ocorreu na década de 50 reúnem-se na fronteira entre o norte e sul coreano para um primeiro e, provavelmente, também último reencontro com as famílias desde o conflito.

Catarina Reis
Lee Keum-Seom foi obrigada a deixar o filho de 4 anos para trás, há 68 anos.© EPA/YMA /POOL SOUTH KOREA OUT

A fronteira que separa a Coreia do Norte e a Coreia do Sul é esta segunda-feira palco de reencontros entre dezenas de sul-coreanos com os seus familiares, separados pela Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953. O conflito dividiu famílias e impediu quem ficou do lado norte de voltar a sair.

A guerra parece ter terminado, mas a verdade é que ainda não há nenhum tratado de paz assinado entre os dois lados da península. O conflito findou apenas com um armistício, embora no início do ano tenha havido um simbólico aperto de mão a prometer o fim, e as comunicações civis entre os dois lados continuam, ainda assim, proibidas.

Por isso, Lee Keum-Seom, 92 anos, quer aproveitar a oportunidade. Esperou 68 anos por este momento. "Não sei o que sinto. Não sei se é real ou se estou a sonhar", disse, citada pela Lusa. Deixou a família para trás: o marido, que já morreu, e o filho de 4 anos, agora com 71. Conseguiu fugir com a filha para o sul, numa viagem de ferry. Entre a ansiedade e a euforia, a conversa entre mãe e filho fez-se de lágrimas.

Também Lee Su-nam, de 76 anos, se mostrava ansioso para o reencontro. Recorda a última vez que viu o irmão, quando a guerra que separou milhões de pessoas estava a romper sobre as duas Coreias, em agosto de 1950. Assim que o exército da Coreia do Norte se aproximou de Seul, onde viviam, o irmão de Lee é capturado na estrada, depois de os seus pais terem decidido enviar o filho mais velho para longe, para que este não fosse recrutado para a milícia comunista. Lee passou os 68 anos seguintes com a ideia de que o irmão teria morrido na guerra.

Su-nam leva consigo apenas um papel que confirma que o seu irmão está vivo e que tem agora 86 anos. "A primeira coisa que vou dizer ao meu irmão é 'obrigada por estares vivo'", contou ao The Guardian. Contudo, Lee vai com cautela, "porque há coisas sobre as quais não se pode falar, devido à política do Norte".

São 89 os participantes nesta iniciativa, que decorre até quarta-feira, na estância de esqui do monte Kumgang. O evento acontece sob a supervisão de agentes norte-coreanos.

Esta não é, contudo, a primeira reunião familiar que os dois lados da Coreia organizam entre si. Sempre que as relações bilaterais parecem melhorar, unem-se para concederem às várias famílias desencontradas a possibilidade de se voltarem a ver. Os reencontros desta quarta-feira acontecem na sequência da aproximação entre Seul e Pyongyang desde o início do ano.

São mais de 20 séries de encontros organizados desde 2000. A primeira contou com 130 mil sul-coreanos candidatos. Mas esta pode bem ser a última, pois a maioria dos sobreviventes já morreu e os restantes têm agora mais de 80 anos. O mais velho participante desta edição tem 101 anos.

As negociações para que estas reuniões se concretizem não têm sido simples. O país sob a alçada de Kim Jong-un tem demonstrado uma certa relutância em realizá-los, pois acredita que são um meio para os norte-coreanos terem contacto com o que se passa no exterior, entrando em conflito com os objetivos do regime.