Juncker pede união e garante que a UE "não é o faroeste"

Tom crítico e pragmatismo do presidente da Comissão Europeia ontem contrasta com discurso emotivo de há um ano.

João Francisco Guerreiro
Ao longo do discurso do Estado da União, Juncker referiu nove vezes a palavra “crise”. Três vezes menos do que no ano passado © EPA/PATRICK SEEGER

Jean-Claude Juncker tentou uma reaproximação entre Estados-Membros, numa altura em que a Europa "enfrenta uma crise existencial". No discurso anual sobre o Estado da União, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, o presidente da Comissão teceu críticas ao "populismo crescente", que ameaça a construção europeia e afasta os interesses nacionais dos comunitários. "Nunca antes vi tão pouco em comum entre os nossos Estados-membros. Nem tão poucas áreas onde concordam em trabalhar juntos", afirmou, deixando ainda uma crítica aos governos nacionais, por falarem "apenas do problemas domésticos, mencionando a Europa apenas de passagem, quando o fazem".

A critica de Juncker é também dirigida à máquina europeia que agora "estabelece prioridades muito diferentes, às vezes em oposição direta aos governos nacionais e aos parlamentos nacionais". Para o Luxemburguês, "é quase como se já não houvesse intersecção entre a UE e as capitais nacionais". Uma das preocupações do chefe do executivo comunitário prende-se com o "populismo galopante", que deixa os governos nacionais "enfraquecidos" e "paralisados pelo risco de derrota nas próximas eleições".

Para restabelecer a confiança na União, Juncker apela aos valores europeus, como "a liberdade, democracia, o primado da lei", deixando uma critica aos que põem em causa estes princípios, nomeadamente no Reino Unido, após a votação no referendo. "A nossa forma de estar europeia são os nossos valores. Nós, os europeus, nunca podemos aceitar que trabalhadores polacos sejam ofendidos, espancados ou assassinados nas ruas de Essex", referiu

"O mercado interno não é um lugar onde os trabalhadores da Europa Oriental possam ser explorados ou sujeitos a normas sociais mais baixas. A Europa não é o faroeste, mas uma economia de mercado social", prosseguiu.

A intervenção de ontem no Parlamento Europeu é marcada pelo tom crítico, mas também por um pragmatismo contratante com o discurso emotivo de há um ano, quando Juncker manifestou "esperança" na capacidade da Europa para acolher refugiados. "Imaginem, por um segundo, se fossem vocês. Os vossos filhos nos braços. O mundo que conhecem a desmoronar à vossa volta", dizia Juncker, procurando mobilizar opiniões públicas na Europa.

Um ano depois, volta a falar no acolhimento de refugiados, chamando a atenção para a forma com o conflito na Síria tem "consequências diretas para a Europa", mas não é por isso que o Estados se mobilizam para dar um exemplo de "solidariedade", pondo em causa o estatuto europeu de soft-power. "Veja-se o caso do conflito na síria. As consequências para a Europa são imediatas. Mas, onde está a União, onde estão os Estados-membros na negociações com vista a uma solução para o conflito", diz Juncker, como dos exemplos da perda influência no mundo.

O ex-primeiro-ministro luxemburguês, que se destacou no ano passado pela apresentação de um plano para a recolocação e realojamento de refugiados, prometeu desafiar os Estados a encontrar formas de conciliar interesses com os governos que estão "relutantes em integrar os refugiados nas suas sociedades", esperando que o executivo eslovaco, forte opositor ao esquema proposto por ele, encontre formas de "superar as divergências", durante os meses em que assume a presidência rotativa da União Europeia.

Ao longo do discurso, o presidente da Comissão refere nove vezes a palavra "crise". Três vezes menos do que no ano passado. Em contrapartida, a intervenção de Juncker inclui um termo novo, o terrorismo. "Devemos defender-nos contra o terrorismo", disse o presidente, antes de anunciar a criação de um "fundo europeu de defesa", com vista a financiar a investigação militar

Entre as ambições que apresentou está o reforço dos poderes da Europol, bem como a duplicação do Fundo Europeu de Investimento, designado como Plano Juncker. "Propomos hoje a duplicação da duração e capacidade do nosso fundo de investimento", fixando o montante em 630 mil milhões, com um período de de vigência dilatado.

Juncker referiu-se também às políticas mais tradicionalmente ligadas à construção europeia, prometendo não se esquecer dos apoios à agricultura ou das dificuldades do produtores do sector leiteiro. "O setor leiteiro tem sido afetado pelo embargo da Rússia. A Comissão Europeia mobilizou montantes significativos para ajudar os agricultores", lembrou, tendo prometido rectificar problemas do sector. "Não aceito que o leite seja vendido a um preço mais baixo do que a água".

Em Bruxelas