Henrique Meirelles avança com candidatura ao Planalto

Em tempo de antena a ser emitido à noite mas divulgado antes, ministro das Finanças atacou PT e definiu-se como "nome do centro". Tem trunfos mas, para já, vale 2% nas sondagens.

João Almeida Moreira
Henrique Meirelles é ministro das Finanças do governo Temer© REUTERS/Adriano Machado

Cinco entrevistas na rádio, abertura de perfis nas redes sociais Twitter e Facebook, equipa de filmagem para mostrar o homem além do economista e, finalmente, tempo de antena de oito minutos a ser transmitido ontem à noite dedicado a atacar o Partido dos Trabalhadores (PT), demonizar o governo Dilma Rousseff e assumir-se como "nome do centro" e "reformista". Foi esta a agenda no último mês de Henrique Meirelles, o mais novo candidato em gestação à presidência do Brasil.

No tempo de antena - cujo conteúdo foi enviado às redações por antecedência - do Partido Social Democrático (PSD), do qual é a principal estrela, o ministro das Finanças do governo de Michel Temer deu o mote para a corrida ao Planalto de 7 e 28 de outubro de 2018. "Estamos no rumo certo e não podemos agora dar passo atrás, o populismo e os oportunistas fazem mal ao país, o Brasil exige competência, responsabilidade e ética, o brasileiro não quer mais aventuras", disse.

Para Meirelles, engenheiro civil e gestor de 72 anos, as reformas impopulares (laboral e previdenciária) que o governo já aprovou ou tenta ainda fazer passar no Congresso Nacional "dependem do poderoso reencontro de milhões de brasileiros que são maioria e não estão nos extremos político e ideológico", numa indireta aos concorrentes Jair Bolsonaro, radical de direita, e Lula da Silva, do PT. O PT, e Dilma, aliás, foram atacados em particular: "O governo anterior levou o país à falência."

Meirelles é, por ora, um nome acessório nas sondagens: tem 2% de intenções de voto, a larga distância dos citados Lula, líder em todos os cenários, e Bolsonaro, e atrás de um pelotão de candidatos competitivos, como Marina Silva, Geraldo Alckmin ou Ciro Gomes. Porém, se assumir o papel de candidato apoiado pelos partidos da base do atual governo, terá um tempo de antena em campanha superior ao de qualquer outro rival.

Joga ainda a seu favor o facto de ter sido um elogiado presidente do banco central durante a presidência de Lula - o antigo sindicalista aconselhou a Dilma o seu nome como candidato a "vice", em 2010, mas a ex-presidente preferiu Temer. Além disso, embora faça parte do deserto ético em que se transformou o atual executivo, Meirelles, que foi executivo do BankBoston durante 28 anos, é considerado um oásis de competência no Conselho de Ministros. A leve recuperação económica - PIB a crescer devagarinho, inflação controlada, taxas de juro a descer - também o avalizam. Só o desemprego teima em não cair.

Contra o candidato, por outro lado, pesa o facto de o campo de Temer ter outros eventuais candidatos em lista de espera, como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o presidente do PSDB, Geraldo Alckmin, que se quer associar à agenda do governo mas não à figura do presidente, e o próprio chefe do Estado. "Precisamos de alguém ponderado, equilibrado e estadista que defenda as reformas e que, defendendo as reformas, defenda o governo Temer", disse o próprio presidente na quarta-feira, sem se autoexcluir da corrida a 2018.

O candidato nascido em Anápolis, no Estado de Goiás, que ocupou a presidência do grupo J&F, cujos donos, os irmãos Joesley e Wesley Batista, hoje presos por corrupção, gravaram Temer e outros agentes públicos, sofre ainda com a imagem pessoal austera - razão pela qual o candidato já começou a investir nas redes sociais, área em que Bolsonaro é líder destacado, e nas filmagens do seu dia-a-dia para mostrar o seu suposto bom humor.

No mesmo dia em que estava previsto ir para o ar o tempo de antena de Meirelles, o candidato Lula da Silva disse em conferência de imprensa que espera que o tribunal de segunda instância, que analisará a 24 de janeiro a sentença de nove anos e meio de prisão dada por Sergio Moro em tribunal de primeiro grau, o ilibe. "É a única atitude digna a tomar (...) eu acho que no final vai prevalecer o bom senso neste país, como podem tentar evitar que um velhinho de 72 anos, energia de 30 anos e tesão de 20 seja candidato? Não é possível, é tanta coisa boa junta que eles têm que deixar, porra, ainda mais um cara que tem um otimismo, sozinho, que todos eles não têm juntos."

Disse também que "uma campanha que destila ódio não se pode fazer", referindo-se a Bolsonaro, seu mais direto perseguidor nas sondagens. "Eu vou pacificar esse país, da mesma maneira que um palmeirense e um corintiano podem subir um elevador sem se morderem, um tucano [membro do Partido da Social Democracia Brasileira] e um petista [membro do PT] também poderão."

São Paulo