Estados Unidos querem avião tão bom que nunca o tenham de usar

Pentágono vai escolher antes do fim do ano um novo bombardeiro

David Axe, jornalista da Reuters

A Força Aérea dos Estados Unidos quer encomendar um novo avião de combate tão sofisticado que nem sequer tenha de o utilizar. O Departamento de Defesa anunciou recentemente que escolherá a breve trecho o construtor de um novo bombardeiro invisível no quadro do programa Bombardeiro de Longo Alcance (LRSB, na sigla em inglês) que tem um valor estimado em 80 mil milhões.

A importância do novo projeto deve-se ao facto de não se ter assistido ao desenvolvimento de um novo bombardeiro nos últimos 30 anos e o Pentágono está pre-ocupado, de modo crescente, que os cerca de 160 B-52, B-1 e B-2 estejam a ficar obsoletos e até vulneráveis aos mais recentes aviões de combate e defesas antiaéreas da China e da Rússia.

A Força Aérea quer cem novos bombardeiros dotados das mais recentes armas e da mais sofisticada tecnologia de evasão aos radares - e com larga autonomia de combustível. É fundamental que o novo avião seja capaz de fazer longos voos, penetrar o espaço aéreo mais bem defendido e destruir uma multiplicidade de alvos numa só passagem.

Isto não significa que o Pentágono pense que vai haver uma guerra com a Rússia ou a China.O argumento é o de que os novos bombardeiros deem nova vida a um conceito central que os militares foram deixando mirrar: a dissuasão convencional.

A existência de armamento de alta tecnologia com tal poder de destruição deve, só por si, fazer pensar os adversários dos EUA. O que daria mais tempo aos diplomatas para negociar soluções pacíficas para conflitos emergentes.

O novo bombardeiro tem vindo a ser pensado desde 2004, quando os estrategas da Força Aérea começaram a falar de um novo avião a entrar ao serviço em 2018. O novo aparelho iria substituir os B-52, construídos nos anos 60, os B-1, que são dos anos 80, e os B-2, dos anos 90.

Após um tempo de espera, resultado do fim da Guerra Fria e da contenção orçamental, a Força Aérea foi autorizada em 2011 a retomar o projeto. Mas dentro de firmes parâmetros financeiros. Cada um dos cem novos bombardeiros não poderia custar mais de 550 milhões de dólares, ou 800 milhões, incluindo pesquisa e desenvolvimento. Estão agora em competição pela designação a Northrop Grumman, construtor do B-2, e o consórcio Boeing-Lockheed Martin. A escolha será feita antes do fim do ano.

Operacional em 2025

A Força Aérea americana espera ter operacionais os novos aviões algures por 2025 - uma década após a assinatura do contrato, isto numa época em que tem sido normal esse período ser de 20 anos. Mas o relativo baixo custo e rápido de-senvolvimento do aparelho são possíveis devido à insistência para que se recorra a "tecnologia madura", isto é, em existência e comprovada, em vez de se começar tudo de novo, como é muitas vezes o caso. Segundo uma fonte, citada pela publicação Defense News, o novo avião terá o "mais elevado grau de maturidade" já visto num programa de aeronaves militares.

Os militares americanos estão convictos de que os novos bombardeiros terão um papel decisivo na prevenção da escalada de conflito entre os grandes poderes. O que nem sempre sucedeu no passado. No início de 2000, o Departamento de Defesa propusera esperar-se até 2037 pelo novo avião. O que então fazia sentido.A Rússia estava a viver uma crise económica e politicamente num estado de indefinição. A China iniciara há pouco a sua expansão económica e militar. Por seu lado, os EUA estavam envolvidos em guerras assimétricas no Afeganistão e Iraque, onde o inimigo não tinha meios antiaéreos. Os B-2, B-1 e B-52 podiam sobrevoar aqueles dois países sem as tripulações terem de se preocupar com a possibilidade de serem alvejadas. Não havia necessidade de um bombardeiro de alta tecnologia.

Hoje, a estratégia militar dos EUA - e o mundo - mudou. Aviões americanos estão envolvidos numa campanha aérea contra o Estado Islâmico na Síria e Iraque. Mas, em julho, um responsável da Força Aérea sublinhou que a Rússia se tornara a principal ameaça à segurança dos EUA, uma ideia repetida pelo novo chefe do Estado--Maior Interarmas, general Joseph Dunford.

O Pentágono está a estabelecer os parâmetros do LRSB tendo em mente a nova ameaça. "Temos de estar à frente quando se assiste a uma enorme e rápida mudança como aquela em que assistimos hoje (...). Temos de manter a vantagem tecnológica", afirmou um responsável do Departamento de Defesa.

A Rússia produz os melhores mísseis terra-ar no mundo e os chineses são também bastante bons. Para ser eficaz, o LRSB tem de estar em condições de penetrar essas defesas evitando ser detetado. O novo bombardeiro deve ser ainda mais invisível do que o famoso B-2, disseram fontes ao Defense News. As formas das asas e o revestimento do aparelho foram concebidas para iludir algumas ondas de radar e absorver outras, ajudando a minimizar a "assinatura" do avião nos ecrãs dos radares inimigos.

Mas mesmo com todo o esforço para permitir que o LRSB possa superar as defesas russas e chinesas, o Pentágono espera que o novo avião nunca tenha de largar uma bomba que seja. Prefere pensar nele como um efeito estabilizador. E a Força Aérea tem razão para subscrever uma teoria como esta, apesar de parecer contrária às mais razoáveis intenções. Em 2013, um analista do Instituto Rand foi contratado pela Força Aérea para determinar como certas forças militares poderiam estabilizar uma crise internacional sem disparar um único tiro.

A conclusão do estudo é que os bombardeiros de longo alcance são os "geradores de maior potencial de dissuasão", com a vantagem de "não exporem as forças dos EUA à situação vulnerável de um ataque surpresa". E, se tudo correr como planeado, os novos e temíveis bombardeiros nunca terão de largar uma única bomba.