Da Índia para Portugal para perceber como os ratos amam

Basma Husai chegou em 2015 para uma entrevista na Fundação Champalimaud.

José Fialho Gouveia
“Antes não gostava nada de cozinhar. Agora vou ao Martim Moniz comprar as especiarias e os ingredientes e faço tudo em casa”, diz Basma Husain© António Pedro Santos/Global Imagens

A primeira pergunta que lhe veio à cabeça quando aterrou em Lisboa foi: "Onde é que se meteu toda a gente?". Basma Husain tinha entrado no avião em Mumbai (antiga Bombaim), uma cidade com mais de 20 milhões de habitantes. À chegada as ruas da capital portuguesa pareceram-lhe desertas. "Achei que era muito sossegado e que havia muito poucas pessoas. Foi um choque", explica.

Veio em abril de 2015 para uma entrevista na Fundação Champalimaud. Tinha-se candidatado a um programa de doutoramento. Nessa primeira visita ficou apenas três dias e mudou-se definitivamente para Lisboa em janeiro de 2016. Está a investigar "comportamentos inatos, que estão impressos no cérebro e que são comuns a muitos animais". Neste momento trabalha com ratos, para perceber como funciona no cérebro o ciclo sexual das fêmeas.

Basma nasceu na Arábia Saudita. Era lá que o pai estava colocado como médico. Quando tinha 11 anos a família regressou à Índia, para a cidade de Lucknow, a capital do estado de Uttar Pradesh. Foi aí que fez a escola e, por influência paterna, o curso de Biologia. No fim da licenciatura arrumou as malas e partiu para Mumbai, para fazer três anos de mestrado no Tata Institute of Fundamental Research. A adaptação não foi simples. Principalmente pela distância da família e pela dimensão da cidade. Foi durante os anos de mestrado que começou a pensar na ideia de partir, de aventurar-se no exterior para um doutoramento. Queria que fosse na Europa e a Fundação Champalimaud foi um dos locais que lhe pareceu mais atrativo por estar ligada à neurociência. Pouco sabia de Portugal quando veio para a entrevista. "Apenas o básico", resume. Não foi o país que a seduziu, mas sim o trabalho.

"Calmos, calorosos e gostam de se divertir." Em poucas palavras é assim que descreve os portugueses. "Nem sempre chegam a horas. Há uma tendência geral para o atraso, mas isso também acontece na Índia", acrescenta. Tirando a pouca atenção ao relógio é-lhe difícil encontrar mais paralelos entre os dois povos. "Culturalmente são países muito diferentes", diz. O único aspeto negativo que aponta na experiência em Portugal é a burocracia. "A candidatura à autorização de residência foi um pesadelo. Pedi uma marcação em janeiro e marcaram-me para maio. Depois disseram-me que teria a autorização num prazo de 16 dias úteis, mas só a recebi em agosto", explica.

A adaptação à comida também não foi fácil e a gastronomia portuguesa ainda não lhe caiu no goto. "No início tentei, mas é demasiado diferente", conta. Agora já se rendeu ao peixe, mas pouco mais. A religião muçulmana impede-a de comer porco e a restante carne tem de ser halal, aquela que foi tratada de acordo com as regras do Islão. As dificuldades alimentares aguçaram-lhe o engenho. "Antes de vir para cá não gostava nada de cozinhar. Agora vou às lojas no Martim Moniz comprar as especiarias e os ingredientes e faço tudo em casa." Aos poucos vai-se habituando também ao português, com a ajuda das aulas oferecidas pela Champalimaud: "Agora já estou mais confiante. Já não tenho problemas em falar com as pessoas quando preciso de alguma indicação."

Além das saudades da família e dos sabores indianos, Basma sente falta da informalidade a que estava habituada no contacto com os outros no seu país. "Na Índia, mesmo quando acabamos de conhecer alguém a interação é mais informal do que cá".

Em princípio, o futuro passará pelo regresso ao país natal quando o doutoramento estiver concluído. Até lá quer perceber como as diferentes hormonas que são libertadas pelos ratos-fêmea durante o ciclo sexual afetam o cérebro. Para entender como os ratos amam.