Críticas em público, cartas em privado: assim vai a relação EUA-Coreia do Norte

Mike Pompeo e Ri Yong-ho trocam críticas e acusações num momento em que EUA e ONU têm provas de que Pyongyang não está a respeitar com o que se comprometeu. Donald Trump trocou correspondência com Kim Jong-un.

César Avó
Pompeo e Ri Yong-ho apertam as mãos sob o olhar da MNE sul-coreana, Kang Kyung-wha© REUTERS/Edgar Su

O clima gelou entre os canais diplomáticos norte-coreanos e norte-americanos devido ao relatório da Organização para as Nações Unidas e às informações obtidas pelos serviços secretos norte-americanos.

Um relatório de peritos das Nações Unidas, a que as agências Reuters e France-Presse tiveram acesso, conclui que a Coreia do Norte "não parou os programas nucleares e de mísseis balísticos e continuou a desafiar as resoluções do Conselho de Segurança através de um aumento maciço de transferências ilícitas de produtos petrolíferos de navio para navio bem como transferências de carvão no mar durante 2018".

Além da importação de energia, o relatório calcula que a Coreia do Norte tenha recebido 12 milhões de euros em exportações de aço e ferro, entre outubro de 2017 e março de 2018, para países como a China e a Índia.
No mesmo período vendeu também produtos têxteis para vários países, no valor de 86 milhões de euros.

O relatório indica ainda que o regime comunista tentou vender armas ligeiras e outro material militar através de intermediários em países como Líbia, Iémen e Sudão. Um traficante de armas sírio de nome Hussein al-Ali terá oferecido "uma variedade de armas convencionais e nalguns casos mísseis balísticos a grupos armados no Iémen e na Líbia", segundo o documento.

Ao relatório juntam-se provas obtidas pelos serviços de espionagem dos Estados Unidos de que a Coreia do Norte continua a produzir mísseis na fábrica em que foi montado o primeiro míssil balístico intercontinental com capacidade de atingir os EUA.

A fábrica de Sanumdong, nos arredores de Pyongyang, está a trabalhar na construção de um a dois mísseis com essas características, revelou o Washington Post na segunda-feira.

"O presidente Kim comprometeu-se a desnuclearizar. O mundo pediu-lhe que o fizesse nas resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Na medida em que estão a agir de forma inconsistente estão a violar uma ou ambas as resoluções, vemos que há um caminho a fazer para atingir o resultado que procuramos", disse o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo, na sexta-feira, à chegada a Singapura para uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da ASEAN.

Durante a cimeira, Pompeo enfatizou a "importância de manter a pressão diplomática e económica para se atingir uma desnuclearização definitiva e totalmente comprovada com a qual a Coreia do Norte se comprometeu".

Também na reunião de Singapura, o ex-diretor da CIA cumprimentou o homólogo norte-coreano Ri Yong-ho. Trocaram sorrisos e frases a prometer encontros em breve, e Pompeo entregou uma carta de Donald Trump para Kim Jong-un. Foi a resposta da Casa Branca ao ditador, que tinha enviado uma missiva no início da semana.

"A impaciência não ajuda a construir confiança. Sobretudo quando se começa com exigências unilaterais", afirmou Ri Yong-ho. O ministro, porém, distinguiu o presidente dos EUA de Washington, "os movimentos que querem um retrocesso, longe das intenções do seu líder".

Advertiu, por fim: "Enquanto os Estados Unidos não mostrarem na prática a vontade de eliminar este problema, não haverá possibilidade de avançarmos do nosso lado."

Mas numa aparente mudança de tom, Mike Pompeo reconheceu que o compromisso assumido por Kim Jong-un não se conclui de um dia para o outro e que o calendário não depende apenas dos EUA. "Todos sabemos que vai levar tempo (...) o calendário final para a desnuclearização será fixado pelo presidente Kim, pelo menos em parte". E afirmou-se "otimista" sobre o fim do programa nuclear da Coreia do Norte.

No quadro diplomático da "máxima pressão", Mike Pompeo apontou também baterias para Moscovo, tendo afirmado que Washington leva muito a sério o incumprimento das sanções da ONU. ""Eu quero lembrar a todas as nações que apoiaram essas resoluções que esta é uma questão séria e é algo que discutiremos com Moscovo."

A questão surgiu a propósito de uma reportagem no Wall Street Journal sobre a entrada de 10 mil trabalhadores norte-coreanos na Rússia, em violação das resoluções das Nações Unidas.

A Rússia negou as notícias do jornal norte-americano.
O embaixador da Rússia na Coreia do Norte também declinou que Moscovo desrespeite as restrições da ONU no que respeita ao fornecimento de petróleo à Coreia do Norte.