Coreia do Norte cava trincheiras para impedir novas deserções

Cerca de 30 mil norte-coreanos fugiram do país desde o final da guerra de 1950-1953. Mas o episódio de fuga de um militar diretamente para a Coreia do Sul é caso raro.

Abel Coelho de Morais
Trabalhos na trincheira feita pelos norte-coreanos para impedir fugas na zona desmilitarizada© Reuters

Soldados do regime de Pyongyang cavam uma trincheira na zona sob seu controlo da Área de Segurança Conjunta (ASC) na zona desmilitarizada, que divide desde a década de 50 a península coreana, altifalantes do outro lado da fronteira descrevem - com grande detalhe - a fuga de um militar norte-coreano no passado dia 13. A imagem reflete o facto de a fuga ter tido sucesso, apesar de ter sucedido sob fogo cerrado.

Além da criação da trincheira, para impedir a passagem de veículos e da colocação de uma barreira móvel na estrada utilizada pelo desertor na primeira parte da fuga, em que utilizou um jipe, os militares de Pyongyang estão a erguer um novo posto de guarda na sua zona de controlo na ASC. Noutro plano, terá sido transferida toda a unidade onde prestava serviço o fugitivo, de quem apenas foi divulgado o apelido, Oh, e a idade, 24 anos. Fonte militar sul-coreana, citada pelo jornal Chosun Ilbo, soldados de Pyongyang têm percorrido o trajeto utilizado por Oh “para detetarem e corrigirem eventuais falhas”.

O norte-coreano, que tinha cinco balas no corpo, está a ser tratado num hospital nos arredores de Seul.

A divulgação da fuga de Oh junto dos militares norte-coreanos, que foi divulgada pela agência Yonhap, da Coreia do Sul, é parte da campanha de guerra psicológica para desmoralizar soldados e população submetida ao regime comunista de Pyongyang. Uma campanha que foi retomada após a Coreia do Norte ter intensificado, em 2015, os ensaios nucleares e disparos de mísseis. Entre os detalhes descritos nas mensagens veiculadas pelos altifalantes estão o facto de Oh ter recebido cinco tiros e a forma como foi acolhido no Sul e a atenção médica prestada.

A fuga de Oh através da zona desmilitarizada é caso raro. A esmagadora maioria das cerca de 30 mil fugas registadas foi feita através da fronteira entre a Coreia do Norte e a China.

Até ontem, o regime de Pyongyang não efetuou qualquer comentário público sobre a fuga do seu soldado. Um incidente que sucede numa conjuntura tensa devido aos desenvolvimentos no programa nuclear norte-coreano e às ameaças proferidas pelo regime liderado por Kim Jong-un contra a Coreia do Sul, Japão e os EUA.

O ministro da Defesa do governo de Seul, Song Young-moo, esteve ontem na zona desmilitarizada, em Panmunjon, onde se deu a fuga do norte-coreano, tendo sublinhado que a atuação dos militares de Pyongyang violou os termos do armistício de 1953. Segundo o órgão das Nações Unidas que supervisiona aquele acordo, a Coreia do Norte violou-o quando os seus efetivos ultrapassaram a linha de demarcação militar, continuando a disparar após o terem feito. Durante a visita do ministro foi possível ver os orifícios causados por duas balas numa espécie de vedação metálica na área sob controlo da Coreia do Sul. Para Song, aquilo que sucedeu no caso de Oh “não pode voltar a repetir-se”. O ministro salientou ainda que os soldados norte-coreanos empunhavam armas espingardas-metralhadoras, o que constitui também violação do armistício; por outro lado, elogiou as medidas “apropriadas” tomadas pelos militares sul-coreanos e americanos - três de cada nacionalidade - que protegeram Oh. Deste sabe-se que está a recuperar bem, apesar do elevado número de parasitas encontrados no seu corpo. Segundo um dos médicos da equipa que o trata, é “pessoa simpática”, apreciador da pop sul-coreana e filmes americanos. Outro médico da equipa referia ontem à Reuters que Oh tem sofrido pesadelos com temor de ser repatriado para a Coreia do Norte.