Bispos recusam denunciar abusos sexuais em confissão

Recomendação para quebrarem o sigilo da confissão foi rejeitada

Lina Santos
Mark Coleridge, presidente da Conferência Episcopal Australiana, durante a conferência de imprensa em que a instituição disse que não está disponível para quebrar o segredo da confissão para denunciar abusos© David Gray/ Reuters

A Conferência Episcopal Australiana rejeita divulgar abusos sexuais que tenham sido revelados em confissão como foi recomendado pela comissão de abusos sexuais que durante cinco anos analisou estes casos

Esta sexta-feira a Conferência Episcopal e os Institutos Religiosos Católicos da Austrália emitiram um comunicado conjunto em que respondem às muitas recomendações que saíram do relatório da comissão de abusos tornado público em dezembro.

Segundo o The Guardian, 98% das recomendações são aceites. Entre elas, a de escrever à Santa Sé, em Roma, pedindo que o celibato seja voluntário ou que a escolha dos bispos seja público. Mas ficou de fora a possibilidade de quebrarem o segredo da confissão para forçar confissões à polícia. "Não negociável", segundo a Conferência Episcopal Australiana.

"Estamos comprometidos com a proteção das crianças e pessoas vulneráveis ao mesmo tempo que mantemos o segredo da confissão", disse a Conferência Episcopal Australiana em comunicado.

"Muitos bispos falharam em ouvir, falharem em acredita e falharam em agir", acrescentou o presidente da instituição, Mark Coleridge. "Essas falhas permitiram que alguns abusadores agredissem uma e outra vez, com trágicas, e algumas vezes fatais, consequências. Os bispos e líderes de ordens religiosas dizem hoje: nunca mais", disse em conferência de imprensa, citado pelo The Telegraph.

A instituição considera que existem menos probabilidades de abusador e vítima levantarem a questão em confissão se souberem que o segredo é desvalorizado. "Seria perdida uma oportunidade de aconselhar o agressor a apresentar-se às autoridades civis ou para as vítimas procurarem ajuda."

Mark Coleridge admitiu "falhas colossais" na igreja australiana. "Sabemos que apenas ações, e não palavras, podem reconstruir a confiança, E enquanto a confiança não for reconstruída, todas as desculpas do mundo falham a marca", disse, prometendo que "não haverá encobrimento, nem transferência de pessoas acusadas de abusos, nem se vai colocar a reputação da igreja acima da segurança das crianças".

A comissão de abusos foi pedida pelo governo depois de vários anos de pressões para investigar casos de abusos sexuais, alguns com décadas. Cerca de 8 mil pessoas foram ouvidas neste âmbito, relatando casos em igrejas, orfanatos, clubes desportivos, grupos juvenis e escolas, de acordo com a BBC. No total, a comissão recebeu 41 770 chamadas de cidadãos.

Divulgado há oito meses, o relatório concluía que ​​​​​​ 7% dos padres católicos na Austrália foram acusados de abusos entre os anos 50 e 2010, mas que estas alegações nunca foram investigadas. Os testemunhos deram início a 230 processos e 60 mil pessoas podem vir a compensadas por abusos.

A Igreja já concordou em indemnizar as vítimas com verbas que rondam os cerca de 95 mil euros por pessoa.