Ativista de 19 anos cria novo partido para contestar Pequim

Principal objetivo é realizar consulta sobre independência do território.

Abel Coelho de Morais
Joshua Wong tem 19 anos e foi um dos rostos visíveis da contestação de 2014© Reuters

A política de "um país, dois sistemas" está em crise, a independência de Hong Kong não é possível a curto prazo, mas é indispensável pensar no futuro do território e começar a atuar no imediato, defende Joshua Wong, fundador de um novo partido político cuja criação foi ontem anunciada.

Joshua Wong, hoje com 19 anos, foi um dos animadores do movimento que, entre setembro e dezembro de 2014, contestou as restrições impostas por Pequim ao sufrágio universal e direto para a escolha do chefe do executivo de Hong Kong, que representa a região junto da República Popular da China (RPC). Este será eleito no próximo mês de setembro.

O nome escolhido para o novo partido, Demosisto, combina o vocábulo grego "demo" (povo) com o latino "sisto" (presença, determinação), e irá apresentar candidatos às eleições para o Conselho Legislativo, a decorrer igualmente em setembro. O Conselho Legislativo (ou LegCo, como é conhecido em Hong Kong) funciona como órgão legislativo do território e 35 dos seus 70 membros são escolhidos pelo eleitorado, sendo os restantes designados numa base de representação corporativa. Apesar de ser secretário-geral do Demosisto, Wong não será candidato por não ter ainda 21 anos, a idade legal para concorrer a cargos políticos.

Os protestos de setembro a dezembro, também conhecidos como a "revolução dos chapéus-de-chuva" (utilizados para neutralizarem os disparos dos canhões de água da polícia), foram o movimento de contestação mais significativo sucedido no território desde a transição para a administração chinesa em 1997. O movimento prolongou-se por 79 dias e representou, segundo o autor de Umbrellas in Bloom (O Florescer dos Chapéu-de-chuva, em tradução literal), Jason Y. Ng, a "explosão" de "décadas de frustração social". Ouvido pela Lusa, o autor considera que, apesar de ter falhado o objetivo de se ter no território "um verdadeiro sufrágio universal e conseguir eleger diretamente o chefe do Executivo em 2017", porque "Pequim não recuou", o movimento teve o "grande ganho do despertar da consciência social" e influenciou mudanças na mentalidade política que se vive em Hong Kong. Tornou-se "difícil para o governo conseguir escapar ao escrutínio público", disse Jason Y. Ng, que no livro recolheu, entre outros, o depoimento de Wong.

Este, na conferência de apresentação do partido, salientou que o principal objetivo do Demosisto será a preparação de um referendo sobre se Hong Kong se pode autodeterminar em 2047, quando termina o período de transição de 50 anos estabelecido nos acordos de transferência de soberania. Esse referendo deve realizar-se, o mais tardar, dentro de uma década. "Sabemos que não é possível a autodeterminação numa só etapa; por isso, propomos este quadro de dez anos", afirmou Wong, salientando que parte importante da ação do Demosisto será a presença "no plano internacional" para recolher apoios para aquele fim.

Um objetivo criticado pelo campo pró-Pequim, tendo Kaizer Lau Ping-cheung, um dos colaboradores próximos do atual chefe do executivo, Leung Chun-ying, declarado que a haver um referendo sobre o futuro de Hong Kong após 2047, "primeiro tem de se consultar a opinião de 1,3 mil milhões de chineses".

A questão imediata é a de perceber como o Demosisto irá relacionar-se com o restante campo pró-democrático, que conta já com um número importante de associações e partidos, muitos destes presentes no LegCo.