Antigo presidente Collor de Mello na corrida para as presidenciais

"Tenho vantagem em relação a alguns porque já presidi ao país, todos sabem como penso", disse ontem político que foi presidente dos brasileiros entre 1990 a 1992, ano em que foi derrubado por um processo de impeachment

João Almeida Moreira
© Reuters

A cinco dias do julgamento decisivo de Lula da Silva e quando a maioria dos potenciais candidatos à presidência em outubro ainda mede atos e palavras antes de avançar, o Brasil foi surpreendido com o anúncio, feito pelo próprio, da candidatura de Fernando Collor de Mello ao Palácio do Planalto pelo Partido Trabalhista Cristão (PTC). O presidente brasileiro de 1990 a 1992, primeiro chefe do Estado eleito no país desde a redemocratização em 1985 e também o primeiro a cair pela via do impeachment, falou em "experiência" para sustentar a sua decisão.

"Tenho uma vantagem em relação a alguns candidatos porque já presidi ao país, o meu partido todos conhecem, sabem o modo como eu penso e ajo para atingir os objetivos que a população deseja para a melhoria da sua qualidade de vida", disse o candidato de 68 anos, em entrevista a uma rádio de Arapiraca, cidade a 130 K m de Maceió, capital de Alagoas, o estado onde construiu a sua carreira política. "Eu digo a vocês que esse é um dos momentos mais especiais da minha vida pessoal e como homem público porque hoje a minha decisão foi tomada: sou, sim, pré-candidato à presidência. Obrigado e vamos à vitória".

A presidência de Collor, eleito aos 47 anos, um recorde até então no continente americano, foi marcada por denúncias numa série de casos de corrupção, que resultaram no seu impeachment com menos de dois anos no cargo. Mas a sua popularidade já estava de rastos quando os três planos para conter a inflação de quatro dígitos no país (herdada da gestão do antecessor José Sarney) resultou no controverso confisco pelo Estado de todas as poupanças dos cidadãos acima de 50 mil cruzeiros, o equivalente hoje a 75 euros (corrigida a inflação).

Na política, perdeu o apoio da maioria do Congresso, primeiro por causa da condução económica desastrada e depois por pertencer a um partido, PTC, e a um estado, Alagoas, sem influência nacional. O descalabro veio a seguir, em forma de escândalos de corrupção e até de prática de magia negra, denunciados pela própria mulher, Rosane, e pelo irmão, Pedro. Desvios de Paulo César Farias, tesoureiro de campanha que morreria a tiro em circunstâncias ainda mal esclarecidas anos depois, foi o mote para o pedido de impeachment.

Nas eleições de 2002, cumpridos os oito anos de inelegibilidade em função do impeachment, ficou em segundo na corrida ao governo de Alagoas mas em 2006 elegeu-se senador pelo estado, sendo reeleito oito anos depois e entretanto ilibado pelo Supremo Tribunal Federal das acusações que motivaram a sua queda. Em 2015, porém, tornou-se um dos políticos mais visados pela Operação Lava-Jato, em que é réu por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A candidatura inesperada de Collor deixou rasto na internet, onde se tornou o assunto mais comentado do dia em poucas horas. "Surto de febre amarela, ameaça de guerra nuclear, só faltava o Collor se candidatar", disse um utilizador do Facebook. No Twitter, uns questionaram se era assunto do Sensacionalista (jornal humorístico), outros congratularam-se pelo "interlúdio cómico num ano tão denso e difícil". Aludindo ao tal confisco das poupanças de 1992, houve quem anunciasse que ia comprar bitcoin. E quem desmentisse o célebre slogan do deputado-palhaço Tiririca. "No Brasil, pior do que está, fica".

As outras pré-candidaturas ficaram para segundo plano. Inclusivamente a do também antigo presidente Lula da Silva (PT), líder em todas as sondagens, que quarta-feira saberá se o tribunal de segunda instância decide se mantém ou não a sentença de nove anos e meio de prisão, decretada por Sergio Moro.

No campo do governo, o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (Democratas), embora não se assuma candidato, iniciou as hostilidades com uma viagem a Washington, onde considerou o programa social Bolsa Família, um convite à escravidão. Jair Bolsonaro (Partido Social Liberal), acusado de manter uma verba de auxílio-moradia em Brasília enquanto deputado mesmo tendo imóveis próprios na cidade, respondeu a uma repórter do jornal Folha de S. Paulo que usava a verba "para comer gente" uma vez que estava "solteiro".

* em São Paulo