A morte do 'Leão de Panjshir' às mãos da Al-Qaeda

Ahmad Shah Massoud era o mais célebre comandante afegão. Meses antes do 11 de setembro avisara para a iminência de um grande ataque terrorista no Ocidente.

Abel Coelho de Morais
Massoud encontra-se com Javier Solana, o então representante para a política externa e de segurança da UE, durante a sua viagem à Europa em abril de 2001. Ao centro, está um tradutor© Reuters

Há mais de duas décadas que combatia de armas na mão, primeiro contra os soviéticos, depois na violenta guerra civil que se seguiu à retirada das tropas de Moscovo em fevereiro de 1989. Tinha completado 48 anos uma semana antes quando, a 9 de setembro de 2001, foi vítima de um atentado suicida organizado pela Al-Qaeda. Desaparecia assim Ahmad Shah Massoud, um dos principais chefes militares e políticos do Afeganistão e um feroz adversário do regime talibã, no poder em Cabul desde 1996.

Meses antes, em abril, Massoud estivera em França e na Bélgica. Num discurso no Parlamento Europeu, advertira para a iminência de um importante ataque terrorista no Ocidente.

O atentado foi reivindicado pela Al-Qaeda, cujo líder, Osama bin Laden foi sempre adversário de Massoud quando esteve no Afeganistão no período do combate aos soviéticas. Os autores foram dois tunisinos que se fizeram passar por jornalistas marroquinos baseados em Bruxelas. Estes deslocaram-se ao nordeste do Afeganistão, onde Massoud se encontrava, solicitando entrevistas a este e outros dirigentes da resistência anti-talibã. O que sucedeu com todos, à exceção de Massoud. Só a 8 de setembro quando os dois tunisinos ameaçaram partir se não se concretizasse a entrevista até dia 10, é que Massoud acedeu. Os explosivos, dissimulados numa máquina fotográfica e num cinto de baterias de câmaras de filmar, foram acionados no início da entrevista. Massoud viria a morrer por causa dos ferimentos. No funeral, estiveram dezenas de milhares de pessoas. O dia da sua morte é feriado no Afeganistão e Massoud um herói nacional.

Massoud destacou-se logo após a invasão soviética, sucedida a 24 de dezembro de 1979, para apoiar um governo dirigido pelo partido comunista local, que chegara ao poder no ano anterior e que enfrentava a resistência dos movimentos islâmicos ao mesmo tempo que estava dividido em duas fações que se digladiavam entre si.

O seu papel ao longo da resistência contra o ocupante soviético e seus aliados afegãos, que combate com poucos meios obtendo, no entanto, importantes vitórias, vão valer-lhe o cognome de Leão de Panjshir, vale na província do mesmo nome que Massoud transformou em base de operações. Tendo começado com poucas centenas de combatentes, no final dos anos 80 reunia uma força de cerca de 13 mil homens, considerada a mais operacional e efetiva entre todos os grupos da resistência.

Após a retirada soviética, esta força vai revelar-se determinante no confronto com o regime de Mohammad Najibullah, o líder dos comunistas afegãos que se manterá no poder até 1992. É então que a Aliança do Norte, que reunia diferentes fações das quais uma das mais importantes era a de Massoud, passa a dirigir o Afeganistão. Mas num ambiente de permanente conflito, que irá opor a maioria dos grupos islâmicos ao de outro dirigente da resistência, Gulbuddin Hekmatyar, que reivindicava o direito de ser ele a governar. O conflito acabará por facilitar a chegada ao poder dos talibãs em 1996.