A estrela de futebol frente ao desafio de mudar a economia da Libéria

Foi um dos maiores futebolistas dos anos 90. Até hoje, é o único jogador africano a receber a Bola de Ouro e considerado Melhor Jogador pela FIFA. Aos 51, chega à presidência da Libéria, onde quase tudo está por fazer.

Abel Coelho de Morais
Geoge Weah prometeu criar empregos durante a campanha e trazer uma 2nova esperança" à Libéria© Reuters

É a primeira transição democrática de um presidente da Libéria nos últimos 70 anos e o protagonista daquilo que se pode considerar uma proeza política, atendendo ao longo historial de guerra civil e conflitos armados no país, foi o "jogador africano do século", segundo a FIFA, e o único futebolista deste continente a ganhar a Bola de Ouro, em 1995, ano em que foi também considerado o melhor jogador do mundo. O seu nome é George Weah, antigo avançado do Mónaco, PSG, AC Milan, Chelsea e Manchester City, e tem pela frente uma tarefa tão ou mais complexa quando vestiu, em 1995, a camisola do clube italiano para substituir o mítico Van Basten.

O nome do jogo que o antigo futebolista tem agora de disputar e ganhar é o económico e representa o grande desafio para este país da África ocidental que saiu, em 2005, de quase um quarto de século de governos autoritários e de violência envolvendo, em certos momentos, a vizinha Serra Leoa. Foi este ciclo de violência que produziu a destruição da maioria das infraestruturas e a quase paralisia das atividades económicas.

Se a presidente anterior, Ellen Johnson Sirleaf (primeira mulher chefe de Estado em África e Nobel da Paz em 2011), no cargo entre 2005 e 2017, conseguiu estabilizar o país e iniciar a recuperação económica, a epidemia de Ébola em 2014-2015 destruiu boa parte desse esforço. Uma situação agravada pela queda dos preços em matérias-primas nas quais a Libéria assenta as exportações.

Uma das nações mais pobres de África e em muito dependente de países doadores, a Libéria tem, no entanto, vastos recursos naturais e minerais, da madeira ao cacau, da borracha ao ouro e diamantes. Foi a luta pelo controlo destes recursos que esteve, em parte, na origem do ciclo de violência dos anos 80 até ao início do século XXI.

Weah, de 51 anos, prometeu durante a campanha "construir boas estradas e criar empregos", recordando que a Libéria "é um dos Estados mais antigos de África", e a primeira república a ser proclamada neste continente, em 1847, mas onde continua a faltar a maioria das infra-estruturas.

O antigo futebolista ganhou na segunda volta ao vice-presidente de Sirleaf, Joseph Boakai, que concedeu ontem a derrota, após estarem escrutinado 98% dos votos. Weah teve 61,%e Boakai 38,5%. Sirleaf não manifestou apoio público a nenhum dos 20 candidatos que se apresentaram à primeira volta. Entre estes, Prince Johnson, que ficou tristemente célebre no período da guerra civil por ter mandado matar de forma bárbara o então presidente Samuel Doe, e uma ex-modelo, MacDella Cooper, que afirma ter um filho de Weah, além de um político veterano, Charles Brumskine, e do empresário mais rico do país, Benoni Urey.

A candidatura de Weah, que se apresentara às presidenciais de 2005 e é senador desde 2009, não esteve isenta de alguma controvérsia. Por dois motivos: pela sua pouca educação formal (argumento já utilizado em 2005 e por ter escolhido para vice Jewel Howard Taylor, ex-mulher do presidente Charles Taylor, a cumprir uma pena de 50 anos de prisão por um tribunal especial da ONU para a Serra Leoa por crimes de guerra e contra a humanidade, pelo envolvimento no conflito neste país. Comentando a escolha, Weah garantiu não ter contactos com Charles Taylor e definiu Jewel como "pessoa capaz, qualificada, amada por todos", dizendo ainda que acha "muito positivo ter uma mulher como vice".

Conhecido em Portugal pela agressão a Jorge Costa no estádio do FCP, em 1996, após o final de um jogo entre o clube portista e o AC Milan, e indicado em 2004 por Pelé para a lista dos cem melhores jogadores do mundo vivos, Weah está agora num outro tipo de prova, em que tem ainda muito para provar.