A cidade para o futuro: ecológica e supertecnológica

Tem um custo estimado em 430 mil milhões de euros e nela não haverá nem poluição nem engarrafamentos. Na apresentação, o príncipe herdeiro falou de um país "moderado".

Abel Coelho de Morais
Apresentação de Neom no final de outubro na capital saudita, Riade. A futura cidade será um centro empresarial, industrial e turístico © Reuters

A Arábia Saudita pensa no futuro. Num futuro pós-petrolífero alicerçado na tecnologia de última geração e nas energias renováveis. O projeto emblemático desta nova ambição é a cidade de Neom, a erguer numa região de deserto à beira do mar Vermelho, fronteiriça com a Jordânia e situada diante do Egito. Data prevista da conclusão do projeto é 2025. O início de construção será 2019.

Num momento posterior, Neom estender-se-á a território da Jordânia e do Egito, com a construção de uma ponte a ligar as duas margens do mar Vermelho.

O projeto, que ocupará uma área de 26 500 quilómetros quadrados (mais de oito vezes a extensão da área metropolitana de Lisboa), tem um custo estimado de 430 mil milhões de euros e foi apresentado aos investidores no final de outubro. A futura cidade terá infraestruturas automatizadas e uma boa parte das tarefas - dos serviços de limpeza à garantia da segurança - estará a cargo de robôs. O sistema de transportes será totalmente automático e drones para transporte individual e coletivo estarão disponíveis. Meta: evitar qualquer forma de poluição e de engarrafamentos.

Lê-se num dos textos de apresentação do projeto: "Os principais investimentos serão na área da nanotecnologia, impressão em 3D e biotecnologias. O mundo estará atento ao que vai surgir em Neom na próxima geração das terapias genéticas, investigação das células estaminais e bioengenharia."

O grande ausente em todo este megaprojeto é o petróleo, ainda hoje a base central da economia do reino saudita. As fontes energéticas serão totalmente de origem renovável: parques fotovoltaicos e quintas eólicas. A água necessária para alimentar a cidade será obtida a partir do mar Vermelho, que será dessalinizada. A produção agrícola para alimentar a cidade estará assegurada por quintas verticais, onde se testarão novas soluções nessa área. As quintas verticais têm como finalidade libertar espaço no solo para a criação de zonas verdes.

Neom é mais um dos projetos do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (conhecido pelas iniciais MbS), que aposta na reinvenção do reino, considerado uma sociedade fechada e refém de uma forma ortodoxa extrema do islão sunita, onde só recentemente foi anunciada a autorização para as mulheres conduzirem.

A estratégia de MbS assenta num documento divulgado em abril de 2016 e intitulado Visão 2030. Nela se detalha como a Arábia Saudita deve apostar nas indústrias não petrolíferas, no incremento das exportações e da produção nacional em todas as áreas. E investir muito mais. Se o reino é um importante destino para os muçulmanos de todo o mundo - é aqui que se situam as duas cidades mais santas do islão, Meca e Medina -, o desafio é encontrar agora pontos de atração para os turistas ocidentais não motivados pela religião. Tanto mais que Meca e Medina estão interditas aos não crentes no islão. E é aqui que Neom ganha importância, com a componente das novas tecnologias e da atração turística. Neste plano, terá a maior importância algo que MbS já definiu como a prática de um islão mais tolerante de uma "Arábia Saudita mais moderada", que se liberte de aspetos considerados anacrónicos. Na intervenção de apresentação do projeto, a 26 de outubro, culminada com fortes aplausos, MbS disse que "70% da população saudita tem menos de 30 anos e, francamente, não podemos passar mais 30 anos da nossa vida a ser afetados por ideias extremistas. Vamos destruí-las, e já".

Mudanças

Um mês antes do anúncio da construção de Neom soube-se que, no espaço dedicado à indústria turística do projeto, será autorizado o uso de biquínis a estrangeiras... e a nacionais sauditas. Mas só neste espaço. Não é, certamente, por acaso que no vídeo de promoção, as figurantes femininas, manifestamente sauditas, estão vestidas pelos padrões da moda ocidental.

Sempre é um passo. Mais um. Além da autorização para as mulheres conduzirem, como antes referido, estas já celebraram a festa nacional em comum com os homens no estádio de Riade e, em breve, deixará de haver separação de sexos nas salas de cinema. E no Visão 2030 perspetiva-se o reforço da presença feminina no mercado de trabalho. Naquela data, "23% a 28% da população ativa deverá ser constituída por mulheres", lê-se no documento.

A edificação de Neom será financiada, pelo menos parcialmente, pela venda em bolsa de parte (5%) da petrolífera nacional, Arranco, a maior empresa do setor a nível mundial. Segundo a Reuters, a China estaria disponível para adquirir a maior parte ou mesmo a totalidade daquelas ações. Ou não fosse o maior importador de petróleo na atualidade.

O projeto, designado em muitas notícias como "faraónico", está a ser apresentado como uma das marcas que o príncipe herdeiro pretende deixar no reino. Na sua apresentação, MbS deixou claro a dimensão daquilo que se pretende alcançar, declarando a certo momento: "Só os sonhadores serão bem-vindos", disse em outubro.

Se Neom é "faraónica", é também necessária, afirmam os analistas económicos. As receitas do petróleo representam ainda 90% das exportações e 70% das receitas do reino. Dependência impossível de manter, em especial num quadro de estagnação do preço de petróleo, na origem de sucessivos défices. Em 2016, foi equivalente a 15% do PIB, ou 80 mil milhões de euros.