"A Catalunha será uma república independente no próximo ano"

Milhares de pessoas participaram na primeira Diada pós-referendo de 1 de outubro de 2017. Aos gritos pela independência, somaram-se, este ano, os apelos à libertação dos dirigentes catalães que foram presos na sequência da organização daquela consulta popular ilegal sobre uma República da Catalunha naquela autonomia de Espanha

Patrícia Viegas
Milhares de catalães desfilam nas ruas de Barcelona para marcar a Diada | foto REUTERS/Albert Gea
Manifestante usa pins contra a aplicação do artigo 155.º da Constituição espanhola na Catalunha e a favor de uma república catalã | foto EPA/Toni Albir
Mulheres colocam laços amarelos pela libertação dos chamados presos políticos | foto REUTERS/Enrique Calvo

A Diada - Dia Nacional da Catalunha - assinalou-se esta terça-feira com milhares de pessoas nas ruas de Barcelona. 460 mil participantes, 1500 autocarros, 270 mil T-shirts vendidas são, para já, as contas da organização, citas pelo El Mundo. A Guardia Urbana, assinala o La Vanguardia, fala em um milhão de manifestantes.

A data destina-se a assinalar que os catalães resistiram, até 11 de setembro de 1714, ao Cerco de Barcelona durante a Guerra da Sucessão Espanhola antes de a Catalunha passar para o Estado espanhol.

Aos tradicionais gritos pela independência desta autonomia espanhola, juntam-se, este ano, os apelos à libertação dos dirigentes catalães que foram presos na sequência do referendo ilegal de 1 de outubro de 2017.

Nele, perguntou-se aos catalães se queriam uma República da Catalunha, independente de Espanha, desafiando a justiça espanhola, bem como a polícia espanhola, conduzindo à aplicação, pela primeira vez, do artigo 155.º da Constituição: a autonomia foi temporariamente retirada ao governo catalão e os poderes regressaram a Madrid.

Os nove dirigentes que estão atualmente detidos em cadeias catalãs são: Oriol Junqueras, Jordi Sànchez, Jordi Cuixart, Josep Rull, Jordi Turull, Raül Romeva, Carme Forcadell, Dolors Bassa e Quim Forn.

Carles Puigdemont, ex-presidente da Generalitat, não está preso porque fugiu. Está exilado na Bélgica. Esta Diada celebrou-a em Gibraltar. Isto porque se entrar em Espanha é detido à luz do mandado de captura que existe contra si.

Apesar de fisicamente ausente, Puigdemont esteve presente através de Ben Emmerson, advogado britânico que o representa na defesa do seu caso junto da ONU. "Estou aqui para vos lembrar que têm muitos amigos lá fora. Estamos ao vosso lado. Enviemos uma mensagem a Pedro Sánchez e ao seu governo de que têm a última oportunidade de fazer o que lhes compete. Usemos a nossa voz e asseguremo-nos de que chega a mensagem de liberdade para os presos políticos A Catalunha será uma república independente no próximo ano. Pedir uma mudança política, em democracia, não é nenhum delito", afirmou o advogado.

"A 1 de outubro demos uma lição ao mundo e ganhámos o direito à independência. Mostrámos que a repressão não nos derrubou", afirmou Elisenda Paluzie, líder da Assembleia Nacional Catalã, uma das duas entidades que organizam as manifestações da Diada.

"Pedimos a Pedro Sánchez que assuma que o seu Estado cometeu a maior das ofensas: reprimir a cidadania", afirmou o vice-presidente da outra entidade organizadora, a Òmnium Cultural, Marcel Mauri, citado pelo La Vanguardia. O presidente da Òmnium, Jordi Cuixart, é um dos nove detidos por causa da consulta de 1 de outubro de 2017.

Recorde-se que, naquele referendo, votaram 2,26 milhões de pessoas. O resultado foi de 90% a favor de uma República da Catalunha, 7% contra e 3% de votos brancos e nulos. Quem votou desafiou a polícia, sobretudo a Polícia Nacional espanhola, uma vez que a polícia autonómica catalã, Mossos d'Esquadra, chegou a ser acusada de compactuar com os independentistas nalgumas situações.

Não só dos independentistas chegou hoje a pressão sobre o primeiro-ministro socialista espanhol. O PP, maior formação da oposição a nível nacional em Espanha, exigiu, através da sua porta-voz no Parlamento, Dolors Montserrat, que "garanta que a Diada volta a ser uma festa de todos os catalães, de convivência e concórdia e não uma manifestação sectária dos independentistas" segregando a sociedade catalã entre cidadãos "de primeira e de segunda" categoria.

Albert Rivera, líder do Ciudadanos, partido que nasceu na Catalunha contra a deriva independentista, escreveu no Twitter: "Senhor Sánchez, deixe de pôr o cargo à frente do interesse geral dos espanhóis. O futuro da nossa democracia não pode depender de [Quim] Torra e [Carles] Puigdemont, esclareça isto antes que seja demasiado tarde".

Em declarações aos jornalistas estrangeiros, citadas pela AFP, o atual líder da Generalitat, Quim Torra, fiel de Puigdemont, admitiu que não pode libertar os presos. "Não tenho a possibilidade de abrir as portas das cadeias", afirmou. Torra tomou posse como presidente do governo autónomo catalão in extremis, a 17 de maio, quando faltava pouco para expirar o prazo que iria obrigar a novas eleições na Catalunha, tendo depois sido levantada a aplicação do artigo 155.º. Porém, se os independentistas voltarem a tentar separar-se do Estado espanhol, este poderá sempre voltar a ser aplicado.

Em entrevista à BBC, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Sánchez, Josep Borrell, ele próprio catalão, afirmou: "preferia" que os presos "estivesse em liberdade" mas o governo "nada pode fazer" porque em Espanha existe "uma separação de poderes" entre política e justiça. Borrell é também ex-presidente do Parlamento Europeu.

Recorde-se que para tirar Mariano Rajoy e o PP do poder, em junho, através de uma moção de censura, Sánchez contou com o apoio de vários partidos regionais, entre os quais os independentistas da Catalunha. Em declarações feitas na Bélgica, Puigdemont já avisou que tal apoio não é um cheque em branco ao líder do PSOE no governo de Espanha.