Amigos inimigos: o que une o "senil" Donald e o "homem-foguete" Kim

À primeira vista só deviam ter em comum a cadeira do poder. Mas há muito mais

Donald Trump tem o dobro da idade de Kim Jong-un. O primeiro nasceu no pós-II Guerra, o segundo meia dúzia de anos antes da União Soviética colapsar. Ambos têm mais irmãos e não foram os primogénitos. Frequentaram colégios particulares - ao que divulgaram os media japoneses, o norte-coreano estudou na Suíça - e foram encaminhados a seguir o negócio familiar. Enquanto estudante universitário de Economia, no final dos anos 60, Donald trabalhou para a empresa de imobiliário que viria a herdar do pai, a Elizabeth Trump & Son, mais tarde Trump Organization. Já no século XXI, em Pyongyang, Jong-un frequentou a universidade (com o nome do avô, Kim Il-Sung) que forma os quadros do regime, e foi educado para ser o terceiro Kim a liderar a República Popular Democrática da Coreia.

Se é verdade que o bilionário se tornou no mais velho presidente dos EUA em início de funções, com 70 anos, e o herdeiro de Kim Jong-Il terá ascendido ao poder com menos de 30 anos (não se sabe a idade certa, terá nascido entre 1982 e 1984), também não é menos verdade que a inexperiência política de um e de outro e as formas de exercício de poder são outros pontos de contacto. Ambos os líderes exigem total lealdade pessoal e rodearam-se de familiares.

A irmã do norte-coreano, Kim Yo Jong, tornou-se numa dos seus conselheiros mais próximos. Chefiou a delegação enviada ao Sul para assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno.
Donald Trump Jr. fez parte da equipa da campanha eleitoral, Ivanka Trump e o seu marido, Jared Kushner, são conselheiros presidenciais.

Kim Jong-un foi o responsável pela rápida aceleração dos programas nucleares e balísticos. De tal forma que a Coreia do Norte ficou com a capacidade de atingir com um míssil território norte-americano.
Além de ter ficado ainda mais isolado na cena internacional, o resultado traduziu-se no agravamento de tensões entre Washington e Pyongyang, que durante meses trocaram ameaças e insultos entre os respetivos líderes.

Em julho do ano passado, Trump perguntou no Twitter se "este gajo não tem nada melhor para fazer na vida" depois de mais um ensaio de um míssil balístico. Na Assembleia-geral das Nações Unidas, em setembro, afirmou que "o homem-foguete tem uma missão suicida para si próprio e para o regime".

Kim respondeu ao classificar Trump de "trapaceiro e criminoso", um "senil americano mentalmente perturbado". Logo de seguida, Kim foi apodado de "louco".
Em novembro, nova troca de palavras: se o norte-americano é brindado com a expressão "velho lunático", Kim é "baixo e gordo".

A confrontação estendeu-se até ao início do ano, quando o norte-coreano abriu a porta ao diálogo, mas com a ameaça velada de que tem um botão nuclear na sua secretária. Trump respondeu na mesma moeda: "Também tenho um botão nuclear, mas é muito maior e mais poderoso, e funciona!"

A retórica conheceu uma inflexão drástica ao realizarem-se contactos entre Seul e Pyongyang, os quais culminaram com a presença da delegação norte-coreana nos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul e com o encontro de Jong-Un como o homólogo Moon Jae-in na zona desmilitarizada que delimita norte e sul da península.

Há quem ainda destaque a capacidade de ambos em ouvirem o interlocutor - uma característica que não é aceite de forma consensual.

O fator Rodman
Há um outro elemento que aproxima os dois homens: o antigo desportista Dennis Rodman. Sabe-se que Kim Jong-un é um adepto de basquetebol e o antigo poste dos Detroit Pistons e dos Chicago Bulls tem uma relação única com o ditador. Já esteve na Coreia do Norte em quatro ocasiões e atuou como improvável diplomata.

Mas Rodman é também conhecido de Trump: partilharam por duas vezes o set do concurso Celebrity Apprentice; o empresário no papel de apresentador e o recordista de ressaltos da NBA como concorrente.

Em 2014, quando Rodman foi pela primeira vez a Pyongyang, Trump reagiu desta forma: "O maluco do Dennis Rodman diz que eu queria ir à Coreia do Norte com ele. Nunca foi discutido, não há interesse, é o último lugar na Terra a que quero ir."

Rodman apoiou a candidatura do bilionário à presidência. No ano passado, em mais uma viagem à capital norte-coreana, ofereceu o livro A Arte da Negociação, do qual Trump é co-autor.

Rodman também se dirigiu para Singapura para "prestar todo o apoio necessário" aos dois "amigos". Se a história já parece ficção, não se fica por aqui: a viagem deste foi patrocinada por uma marca de criptomoeda, Potcoin, criada para o comércio de canábis.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

A "taxa Robles" e a desqualificação do debate político

A proposta de criação de uma taxa sobre especulação imobiliária, anunciada pelo Bloco de Esquerda (BE) a 9 de setembro, animou os jornais, televisões e redes sociais durante vários dias. Agora que as atenções já se viraram para outras polémicas, vale a pena revistar o debate público sobre a "taxa Robles" e constatar o que ela nos diz sobre a desqualificação da disputa partidária em Portugal nos dias que correm.

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.