Ameaça norte-coreana é resposta à pressão dos EUA

Kim Jong-un deixa no ar cancelamento da cimeira com Donald Trump a 12 de junho. Para o regime comunista norte-coreano o levantamento de sanções não é suficiente

Os exercícios militares conjuntos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul em curso e as declarações recentes do secretário de Estado Mike Pompeo e de John Bolton, conselheiro de segurança de Donald Trump, sobre o modelo de desarmamento a seguir, levaram a uma mudança de agulhas da liderança da Coreia do Norte: cancelou uma reunião intercoreana que devia ter decorrido ontem e pôs em causa a realização do encontro entre Kim Jong-un e Donald Trump, no dia 12 de junho. "Temos de esperar", reagiu o presidente dos Estados Unidos.

"Se os EUA estão a tentar empurrar-nos para um canto para nos forçar a renunciar de forma unilateral ao nuclear, não estamos interessados nesse diálogo", disse o ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros norte-coreano, Kim Kye Gwan, citado pela agência oficial KCNA.

"Pyongyang disse claramente muitas vezes que o pré-requisito para a desnuclearização é acabar com a política hostil em relação à Coreia do Norte, às ameaças nucleares e à chantagem dos Estados Unidos", continuou o dirigente norte-coreano. No passado, o regime comunista exigiu a retirada dos 28 500 militares norte-americanos estacionadas no sul, bem como o fim da proteção nuclear a Seul.

"É uma tática diplomática. É a política do precipício para mudar a posição norte-americana", comentou Kim Hyun-wook, da Academia Diplomática da Coreia, à AFP.

No domingo, o secretário de Estado Mike Pompeo afirmou que os Estados Unidos estão prontos a levantar as sanções económicas à Coreia do Norte se se verificar a "completa, verificável e irreversível desnuclearização" daquele país.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, Kang Kyung-hwa, conversou com o secretário de Estado Pompeo sobre o adiamento das conversações com o Norte. Na reunião iriam ser levadas à discussão formas de avançar para o fim formal da Guerra da Coreia e para a "completa desnuclearização da península". Pompeo assegurou a Kang que Washington vai continuar a preparar a cimeira dos EUA e da Coreia do Norte.

No mesmo sentido falou a secretária de imprensa da Casa Branca. "Ainda estamos esperançados de que a reunião será realizada e caminhamos nessa direção, mas ao mesmo tempo estamos cientes de que poderia ser uma negociação difícil", disse Sarah Sanders à Fox News. "O presidente está pronto para a reunião, caso tenha lugar. Caso contrário, vamos continuar a atual campanha de máxima pressão."

Outra pedra no sapato é John Bolton. O novo conselheiro de Trump defendeu como exemplo a seguir o acordo obtido entre EUA e Reino Unido com a Líbia. Em 2003, Muammar Khadafi renunciou ao programa nuclear. "Uma tentativa sinistra de impor ao nosso digno Estado o destino da Líbia e do Iraque", comentou o ministro norte-coreano, que "não esconde o sentimento de repugnância" perante Bolton. No passado, Pyongyang classificou o embaixador dos EUA na ONU durante a administração Bush de "escória humana" e "sanguessuga".

Singapura à espera do encontro

> Singapura foi a localização escolhida para a reunião entre Donald Trump e Kim Jong-un. A decisão surpreendeu muitos, mas explica-se: a Cidade-Estado situada na península da Malásia é uma aliada dos EUA, mas mantém relações com a Coreia do Norte desde 1975. Os norte-coreanos têm uma embaixada no centro financeiro. E outro fator importante, tem um nível de segurança exemplar. Ao anunciar Singapura, no dia 10, Trump acabou com um mês de especulação. A zona desmilitarizada entre o Norte e o Sul, a ilha de Jeju (Coreia do Sul), as capitais da China e da Mongólia, ou ainda a Suíça e a Suécia, foram os locais mais falados.

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João Gobern

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Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.