Amazónia. Associação divulga vídeo de "indígenas isolados do mundo"

Os Awá não mantém contacto com o exterior. Foram agora conhecidas imagens que pretendem alertar para a sua existência. E para os riscos que correm de serem dizimados pelos madeireiros

Indígenas da Amazónia, que se acredita não manterem qualquer contacto com o exterior e serem constantemente ameaçados pelo avanço dos madeireiros, foram filmados no Estado brasileiro do Maranhão, segundo informou esta segunda-feira a organização não-governamental (ONG) Survival International.

As imagens, com pouco mais de um minuto, foram captadas em 2018 e mostram alegadamente um jovem indígena da tribo isolada Awá (que em 2012 era considerada a mais ameaçada por aquela ONG) - em tronco nu, com colares no pescoço e com uma catana nas mãos - numa área densa da floresta amazónica. Também se podem ver lanças supostamente empunhadas por outro indígena que, contudo, não aparece neste vídeo.

As imagens foram obtidas por membros de uma outra tribo, os Guajajara, que vivem numa zona próxima à ocupada pelos Awá.

"Nós filmámos sem pedir permissão porque sabemos como é importante mostrá-los em fotografias, porque se o mundo não os vê, eles [Awá] serão assassinados pelos madeireiros", explicou Erisvan Guajajara, que fez as filmagens.

O vídeo foi divulgado pela Mídia Índia - uma associação de cineastas indígenas - e foi exibida ontem no Fantástico. A cena faz parte do curta-metragem Ka"a Zar Ukize Wà - Os Donos da Floresta em Perigo, um grito de socorro para a grave situação dos indígenas isolados Awá, que compartilham a Terra Indígena Arariboia com seus parentes Guajajara.

A curta-metragem será lançada esta terça-feira no encerramento da Mostra ISA 25 Anos de Cinema Socioambiental, em São Paulo.

Os Guajajara, que somam cerca de 14 mil indígenas, formaram um grupo chamado "Guardiões da Floresta", que pretende defender territórios e reservas indígenas ameaçados pela extração ilegal de madeira e pela expansão agrícola.

O grupo transmite dados de GPS de áreas onde os troncos das árvores são cortados e ajudam os bombeiros durante incêndios florestais.

"Precisamos que a Terra seja protegida para sempre"

"Nós, guardiões, estamos a defender os direitos dos nossos povos, a defender os índios isolados e a defender a natureza para todos nós. Três dos nossos guardiões foram assassinados. Precisamos que a Terra seja protegida para sempre", frisou Erisvan Guajajara.

Já o diretor da Survival International, Stephen Corry, acrescentou que o vídeo agora divulgado "é mais uma prova de que indígenas Awá não contactados realmente existem".

"Os madeireiros já mataram muitos dos seus parentes [da tribo Awá] e forçaram outros a sair da floresta (...). Apenas um clamor global está entre eles e o genocídio", afirmou Stephen Corri.

A Constituição brasileira estabelece que os povos indígenas têm o direito a viver em reservas, onde qualquer exploração mineral ou agrícola não tradicional é proibida.

No entanto, o Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que chegou ao poder com o apoio do agronegócio e das empresas mineiras, já disse que não vai demarcar reservas indígenas e pode reverter a proteção de algumas áreas por acreditar que os povos tradicionais do país devem ser integrados na sociedade moderna.

Na última sexta-feira, durante uma reunião com jornalistas estrangeiros, Bolsonaro acusou os países e ONG que apoiam a preservação da floresta amazónica "de querer que os nativos [brasileiros] permaneçam num estado pré-histórico, sem acesso às tecnologias e às maravilhas da modernidade".

O chefe de Estado brasileiro também questionou dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, órgão público que reportou um aumento de 88% no desmatamento no Brasil em junho em relação a junho de 2018.

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