Amazon apaga centenas de críticas negativas ao livro de Hillary Clinton

Livro recebeu mais de 1600 críticas numa noite, poucas horas depois de ser posto à venda na Amazon

Poucas horas após ser posto à venda, o livro de Hillary Clinton sobre as eleições presidenciais de 2016 recebeu centenas de críticas no site da Amazon. Mas grande parte destas críticas foram apagadas do site que vende o livro What Happened por 17,99 dólares, cerca de 15 euros.

O livro de 512 páginas foi lançado na terça-feira e às 11 da manhã do dia seguinte acumulava 1669 críticas, segundo a Quartz. As opiniões sobre a obra dividiam-se em dois polos distintos: 50% dos leitores dava 1 estrela ao livro, a classificação mais baixa, e 45% dava cinco estrelas, a avaliação máxima que um produto pode receber no site da Amazon. Na quarta-feira à tarde, mais de 900 críticas tinham sido apagadas.

"Parece altamente improvável que aproximadamente 1500 pessoas tenham lido o livro da Hillary Clinton numa noite e tenham achado que ou é brilhante ou é horrível", afirmou Jonathan Karp, da Simon & Schuster, editora do livro, segundo a AP.

Uma análise mais aprofundada da Quartz, ajudou a perceber que dos mais de 1600 clientes que tinham avaliado o livro, apenas 338 eram compradores certificados, ou seja, tinham de facto comprado a obra no site da Amazon.

Claro, há a hipótese de alguns leitores terem comprado o livro noutra loja e terem decidido exprimir as suas opiniões no site do gigante das vendas online. Ainda assim, o número de críticas e as avaliações dos leitores são insólitos quando comparados com outros livros vendidos pela Amazon.

Olhando para os 10 livros mais vendidos pela Amazon este ano, vê-se que, em média, 80,6% das críticas no site vêm de pessoas que compraram o livro nesta mesma loja. No caso do livro de Hillary Clinton, apenas 22% das pessoas que avaliaram a obra compraram What Happened na Amazon.

Tendo em conta apenas a opinião dos 338 compradores certificados, a obra de Clinton está avaliada em 4.9 estrelas. Se juntarmos a opinião dos outros leitores, a avaliação desce para 3.2. Os leitores que não compraram o livro na Amazon dão à obra uma avaliação de 2.3 estrelas.

"É óbvio que pessoas que não compraram o livro estão a dar-lhe uma nota muito baixa", disse Tommy Noonan, dono do site ReviewMeta, que ajudou a Quartz a medir as avaliações dos críticos.

"Se isto tivesse acontecido por acaso, a probabilidade de ver uma discrepância [de avaliações] como esta seria de uma em um bilhão", continuou Noonan, acrescentando que livros sobre política são frequentemente julgados pela opinião dos leitores sobre o político, e não sobre o que está escrito.

Esta quinta-feira, o livro tinha cinco estrelas no site, já que 95% dos 598 comentários no site lhe davam cinco estrelas.

A Amazon não confirmou que apagou as críticas, mas um porta-voz disse que a empresa possui "mecanismos para garantir que as vozes de muitos não afogam as vozes de poucos" e que "exclui críticas que violam as normas", segundo a Quartz.

Os estatutos da Amazon explicam que "quando um produto tem um grande número de críticas em pouco tempo", a empresa reserva-se o direito de restringir críticas que não sejam de compradores certificados.

No livro, Hillary Clinton apresenta a sua versão dos acontecimentos nas eleições presidenciais, assume a sua responsabilidade na derrota frente a Trump, mas rejeita absolver intervenientes como o FBI, a Rússia e os media. Na obra, Clinton não mede as palavras sobre o sucessor de Barack Obama na Casa Branca: um "mentiroso", "sexista", indigno e incompetente.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.