Álvaro Uribe, o vencedor do "não" de olho nas presidenciais de 2018

Ex-presidente está impedido de voltar à Casa de Nariño, mas partido que lidera pode sair beneficiado na luta para as eleições

Durante os oito anos de mandato (2002-2010), Álvaro Uribe apostou numa mão de ferro contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e a guerrilha foi ficando mais frágil, derrota atrás de derrota. Quando o seu antigo ministro da Defesa e delfim chegou ao poder, o ex-presidente estava convencido de que seria para continuar com essa política até à rendição final. Mas Juan Manuel Santos acabou por optar pelo diálogo e Uribe tornou-se no seu principal crítico, não hesitando em defender o "não" no referendo ao acordo de paz com as FARC negociado em Havana. A vitória do "não" acabou por ser também a sua.

O senador de 64 anos e líder do partido Centro Democrático demonstrou que ainda tem influência política, sendo o principal rosto do "não" e contribuindo para que esteve tivesse mais 53 mil votos que o "sim" num cenário em que partia claramente em desvantagem. Não só todas as empresas de sondagens (outras derrotadas da noite) davam uma vitória ao "sim" com mais de dez pontos de diferença, como a comunidade internacional - desde a ONU ao presidente dos EUA, passando pelo Papa - estavam do lado do "sim". Este era de tal maneira dado como certo (e essa confiança foi um dos problemas), que Santos e o líder das FARC apareciam como favoritos para vencer o Nobel da Paz, que é anunciado na sexta-feira.

A vitória não implica que os colombianos queiram voltar aos tempos da mão de ferro contra as FARC, na esperança de repetir o sucesso de anos como o de 2008 - além da morte de vários dos seus comandantes às mãos do exército e da do histórico líder Manuel Marulanda de ataque cardíaco, as FARC perderam alguns dos mais valiosos reféns que mantinham há anos, como a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e três norte-americanos.

Significa que Uribe conseguiu passar a mensagem de que votar "não" era apostar "num melhor acordo". De facto, apesar de inicialmente ser contra o diálogo, agora defende um "pacto nacional" e, numa curta intervenção após serem conhecidos os resultados, lembrou que "todos queremos a paz" e só é preciso "corrigir o rumo". O seu antigo vice, Francisco Santos (primo do atual presidente), lembrou também que na renegociação "não é preciso começar do zero, porque há muitos elementos que estão bem construídos", num elogio pouco comum ao acordo de Havana.

Uribe terá agora que mostrar que esse melhor acordo é possível. A sorte do Centro Democrático em 2018 depende da próxima jogada do ex-presidente e da forma como vão decorrer as renegociações com as FARC. Uribe está impedido por lei de se candidatar a um novo mandato em 2018 - quando em 2010 quis fazer um referendo para poder concorrer a um terceiro mandato, o Tribunal Constitucional recusou e estipulou que um presidente só pode governar durante dois mandatos. Mas isso não significa que o uribismo não possa voltar ao poder. E em 2014 já esteve perto de o fazer quando o seu candidato, Óscar Iván Zuluaga, venceu a primeira volta das presidenciais, acabando contudo derrotado na segunda volta por Santos, cuja popularidade agora ronda apenas os 30%.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Os irados e o PAN

A TVI fez uma reportagem sobre um grupo de nome IRA, Intervenção e Resgate Animal. Retirados alguns erros na peça, como, por exemplo, tomar por sério um vídeo claramente satírico, mostra-se que estamos perante uma organização de justiceiros. Basta, aliás, ir à página deste grupo - que tem 136 000 seguidores - no Facebook para ter a confirmação inequívoca de que é um grupo de gente que despreza a lei e as instituições democráticas e que decidiu fazer aquilo que acha que é justiça pelas suas próprias mãos.

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Falta (transparência) de financiamento na ciência

No início de 2018 foi apresentado em Portugal um relatório da OCDE sobre Ensino Superior e a Ciência. No diagnóstico feito à situação portuguesa conclui-se que é imperativa a necessidade de reformar e reorganizar a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de aumentar a sua capacidade de gestão estratégica e de afastar o risco de captura de financiamento por áreas ou grupos. Quase um ano depois, relativamente a estas medidas que se impunham, o governo nada fez.