Pelo menos 30 detidos em manifestação de homenagem a lusodescendente morto em Nantes

Segundo a Reuters, a BFMTV e jornais como o Le Figaro, há registo de confrontos entre os manifestantes e as forças policiais. E de pelo menos 30 detenções.

Centenas de pessoas juntaram-se este sábado em Nantes, França, para uma marcha de homenagem a Steve Maia Caniço, o lusodescendente encontrado morto no rio Loire, mais de um mês depois do seu desaparecimento durante uma operação policial polémica num festival de música.

Os manifestantes reuniram-se perto da Grua Titan amarela, um monumento situado na ilha de Nantes, onde o corpo do jovem lusodescendente de 24 anos foi encontrado na segunda-feira.

Segundo a Reuters, a BFMTV e jornais como o Le Figaro, há registo de confrontos entre os manifestantes e as forças policiais. E pelo menos 30 pessoas foram detidas pelas autoridades.

Jovens pais com carrinhos de bebé, crianças de bicicleta, pessoas de todas as idades marcaram este sábado presença em Nantes, descreveu a AFP.

Para Clémentine, de 25 anos, ouvida pela AFP, a morte de Steve Caniço "foi um choque pessoal".

"Batemos nas pessoas que se divertem, atiramos-lhes gás lacrimogéneo, atiramos-lhes os cães (...) Eu respeito os polícias, mas o seu trabalho é manter as pessoas em segurança, não colocá-las em perigo", disse a jovem que, à semelhança dos restantes entrevistados pela AFP, recusou dar o seu apelido.

Mesmo tendo polícias e militares na família, a jovem não quis deixar de, com a sua presença, "protestar contra a violência pessoal".

Para Hugues, de 42 anos, vindo de uma localidade a uma hora de distância de Nantes, "quanto mais pessoas estiverem, maior será a pressão para chegar à verdade".

"É chocante a maneira como é tratado a nível político, parece que estamos a tentar abafar o caso. Nunca ninguém é responsável", disse.

Steve Maia Caniço desapareceu na noite de 21 para 22 junho, na sequência de uma intervenção policial numa festa durante a qual terão sido usados gás lacrimogéneo e balas de borracha para dispersar os jovens, o que está a gerar uma onda de contestação em França.

Nessa noite, várias pessoas caíram ao rio e algumas contaram ter ficado cegas pelo uso do gás lacrimogéneo.

O caso suscitou fortes emoções e reações em França, tendo surgido vários apelos a manifestações durante este fim de semana, alguns para denunciar a violência policial, tendo esses apelos específicos origem em grupos ligados ao movimento social dos coletes amarelos, refere a AFP.

Na sexta-feira, o ministro do Interior francês, Christophe Castaner, admitiu que subsistem dúvidas sobre a legitimidade do uso de gás lacrimogéneo durante a intervenção policial.

"O que sei por ter lido o relatório, como vocês leram, é que há dúvidas sobre o uso de gás lacrimogéneo [...] sobre a oportunidade de ter desencadeado o uso de gás lacrimogéneo. A questão foi levantada e é a essa questão a que temos de responder", disse Christophe Castaner, citado pelo jornal Le Figaro.

Dias antes, na terça-feira, o próprio primeiro-ministro de França, Edouard Philippe, divulgou as conclusões do relatório da Inspeção Geral da Polícia, adiantando que o documento não estabelecia qualquer ligação entre a intervenção policial e o desaparecimento de Steve Maia Caniço.

Em 26 de junho, a seguir aos acontecimentos de Nantes, Christophe Castaner não descartava a possibilidade de o desaparecimento de Steve Maia Caniço estar ligado à operação.

Na sequência do ocorrido, o Ministério do Interior francês ordenou, em 24 de junho, a abertura de uma investigação à atuação das forças policiais.

Com a descoberta do corpo, as autoridades anunciaram a abertura de uma investigação por suspeitas de "homicídio involuntário", enquanto decorrem várias outras diligências para tentar esclarecer as circunstâncias da ação das forças de segurança.

Cécile de Oliveira, advogada da família do lusodescendente, considera que o caso ganhou contornos de "assunto de Estado", adiantando que, neste momento, não é "possível descartar responsabilidades de quem quer que seja" na morte do jovem.

Sustentou, por outro lado, que é preciso continuar a "investigar em condições de serenidade, independência e confidencialidade".

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