"Alemanha está em mudança. Há pessoas que têm medo"

Quem vive na Alemanha tem medo de novos ataques terroristas e enfrenta um forte dilema em relação à política da chanceler Angela Merkel para com os refugiados.

É cenário de filmes, o principal ponto turístico da cidade e ninguém sai de Berlim sem passar por lá. Grupos de turistas, famílias de bicicleta, músicos de rua cruzam-se nas portas que abrem para todos. Numa cidade, aberta a refugiados e à discussão, a vida continua como sempre. Eles até podem lá estar, nas Portas de Brandeburgo, mas ninguém deu por eles, ou pelo menos, ninguém notou um reforço do número de polícias. O habitual carro identificado, que diz "Polizei", está num lado da praça, não muito longe do pequeno memorial improvisado às vítimas do atentado de Nice (ou às vítimas dos atentados das últimas semanas). Há velas e flores que lembram o cinzento das mortes. Contrastam com os donuts coloridos que Hakan vende numa cadeia americana ali ao lado. Não tem medo de trabalhar no centro da cidade. "Medo de quê? Do que os media inventam? Não tenho medo".

Ele também não tem medo mas aprendeu a "olhar para o lado mais vezes". De mochila às costas, sai de casa bem cedo, atravessa a cidade de comboio, metro e autocarro até chegar ao centro. "Não senti nenhum reforço de segurança nos transportes públicos, tem estado tudo muito calmo". Depois dos ataques dos últimos dias não mudou a rotina. Pele e cabelos claros, confunde-se no meio dos outros alemães. O que o distingue é o nome. Ali, 42 anos, é filho de pais turcos mas nasceu em Berlim. "Eu não pareço um turco típico, mas quando ouvem o meu nome tratam-me de maneira diferente. Há muitos preconceitos. Muitas pessoas pensam: olha um turco, é melhor ter cuidado. E infelizmente não é uma piada. Desde criança que noto isso, agora talvez mais. Sou alemão mas não deixo de ser turco." Um dos três filhos, de oito anos, fez perguntas sobre o tiroteio, o ataque à facada, o bombista suicida, o ataque com um machado. Viu as imagens na televisão sem perceber bem o significado. Ali deixou a mulher tentar explicar. "Aqui se disseres que és de Portugal está tudo bem. Se fores da Síria, nem por isso. Toda a gente diz que não tem nada contra estrangeiros mas essa frase acaba sempre com um "mas".

"A Alemanha é um país que está a enfrentar uma grande mudança. Nos gabinetes do governo, nas empresas, nos hospitais há muitas pessoas de origem alemã que se estão a reformar. Esses lugares vão ser ocupados por imigrantes". Alexander Lautsch é assessor de orientação laboral para imigrantes, nasceu e cresceu na Alemanha oriental mas vive há vários anos em Berlim. "Há pessoas que têm medo e que não entendem esta transformação que o país está a viver." Concorda com a entrada e a integração de refugiados. "Passam a ter um lugar para viver, têm comida, acesso a cursos de idiomas, há vários tipos de ajudas mas claro, a Alemanha também é um país de muita burocracia. Mas se compararmos com outros países, acho que há uma mentalidade muito aberta para receber". Os quatro atentados recentes causaram 13 mortos. Três dos quatro atacantes procuravam asilo e dois dos atentados foram reclamados pelo Estado Islâmico. Alexander admite que vivemos uma época "muito nervosa", os media contribuem para o medo porque "procuram o sensacionalismo, a notícia rápida e forte". Os acontecimentos em Würzburg e Ansbach foram provocados por duas pessoas que agiram sozinhas, "foi horrível mas não se pode dizer que estejamos a viver uma guerra, não se pode exagerar".

Mas para Emmanuel há uma guerra clara contra o terrorismo. É francês e vive em Berlim há um ano. "É difícil lutar contra o terrorismo porque o perigo é imprevisível, está em todo o lado." Não conhece a solução, mas sabe que ficar em casa "não vai ajudar. Obviamente tenho medo mas ninguém se pode preparar para um atentado, temos que tentar viver normalmente. É cruzar os dedos e esperar que nada aconteça". O mês de agosto vai ser passado em Paris com a família mas não vai deixar de acompanhar a atualidade na Alemanha. "Concordo com as políticas que apoiam os imigrantes defendidas por Angela Merkel, vivemos num mundo global e é importante dar uma resposta positiva à chegada dos refugiados. A extrema-direita e o populismo estão a ganhar terreno. Se a Alternativa para a Alemanha (AfD) e Marine Le Pen (em França) ganharem, o terrorismo vence a batalha. Querem dividir-nos e não podemos deixar".

Para Anke "as políticas de refugiados defendidas pela chanceler alemã já não funcionam." E explica porquê: "Há muita gente a entrar no país e não sabemos quem são, nem onde estão. Perdemos o controlo. Infelizmente os partidos de extrema-direita estão a aproveitar-se da situação" A viver há 30 anos em Munique, sempre considerou a capital da Baviera a cidade mais segura da Alemanha. "Agora já não é bem assim, sinto-me mais segura em Berlim". Estava em Munique no dia em que um jovem matou nove pessoas a tiro. "Não havia transportes na cidade, estava tudo vazio, foi assustador. Só via carrinhas pretas das forças especiais. Durante três horas tudo parou. Não quero imaginar como seria se de fato houvesse um atentado. Não sou uma pessoa medrosa mas senti-me desconfortável". Tenta encarar o dia de forma positiva: "decidi não deixar que o medo tomasse conta de mim, decidi não dar esse poder a ninguém".

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