Tailândia. "Agarrem-se à família e não se deslumbrem com ofertas"

Os conselhos do líder dos mineiros chilenos aos rapazes tailandeses. Quase todos os "33" sofrem de problemas psicológicos e muitos deles não conseguiram voltar a trabalhar

Os 33 mineiros chilenos que ficaram presos numa gruta em 2010 seguiram com atenção o resgate das 12 crianças tailandesas e do seu treinador de futebol. Tal como os "javalis selvagens" - o nome da equipa de futebol de dez dos rapazes resgatados esta semana -, também eles estiveram no centro das atenções há oito anos, quando passaram 69 dias debaixo de terra à espera de serem resgatados da mina de São José, situada no norte do Chile.

No entanto, o que se seguiu à euforia do salvamento foi como descer novamente à terra: separações, problemas psicológicos, penúria e desemprego.

O antigo mineiro e líder do grupo, Luís Urzua, não quer que os 12 rapazes, com idades compreendidas entre os 11 e os 16 anos, ou o seu treinador, de 25, sejam afetados pelos mesmos problemas. Aconselha a que se mantenham muito próximos da família e que não se deixem deslumbrar com as ofertas financeiras que certamente irão receber.

Aliás, ainda não estavam salvos todos os rapazes, e já choviam convites: para assistirem à final do Mundial de Futebol na Rússia e até para visitarem Portugal.

Segundo o antigo mineiro, depois da escuridão, da fome e do isolamento, os perigos, uma vez cá fora, podem comprometer a recuperação psicológica dos 13.

Urzua recordou a sua própria experiência após ter sido salvo: o brilho das luzes dos media, os muitos advogados que ofereciam contratos de direitos sobre filmes e livros ou políticos desejosos de apanhar a boleia do protagonismo mundial dos mineiros.

"Eles e as suas famílias não terão capacidade de lidar com esse tipo de coisas. Nós não soubemos lidar e éramos adultos", alertou Urzua, em entrevista à Reuters.

Atualmente com 62 anos, Urzua é considerado o responsável por ter mantido os outros 32 mineiros unidos durante o tempo que passaram no subsolo. Ekaphol Chantawong, o treinador dos Wild Boars, tem sido comparado a este mineiro, por também ter conseguido manter as crianças calmas durante os nove dias que passaram sozinhos, sem comida ou água potável, até o grupo ter sido descoberto, por acaso, por um dos mergulhadores que procuravam os desaparecidos.

Nem tudo são alertas. O antigo mineiro reconheceu e elogiou a cautela das autoridades tailandesas na forma como geriram a situação, como o facto de não terem identificado as crianças à medida que estas iam sendo resgatadas - um processo que demorou três dias - e por manter os 13 em quarentena no hospital para evitar o risco de infeções.

"É importante que as crianças possam reintegrar-se pouco a pouco no seu antigo ambiente, porque vão ficar muito traumatizadas e vulneráveis", disse Urzua, que rezou "todos os dias" pelos rapazes e pelas famílias que os esperavam no exterior da gruta. Agora reza pelo futuro dos resgatados.

Oito anos depois, ainda não conseguem dormir

O chileno revelou que muitos dos 33 mineiros ainda sofrem com problemas de saúde mental e que não podem trabalhar.

"Quase todos os mineiros têm problemas psicológicos: não dormem nem se sentem bem. Não é bem conhecido no Chile, mas eles estão em desespero ", afirmou.

Desde que surgiram as notícias de que uma equipa de futebol tailandesa estava presa, vários mineiros acompanharam o resgate, mas houve um deles que não aguentou reviver a situação.

"Sofro de ansiedade e voltei ao meu terapeuta", disse Omar Reygadas à Reuters.

Jorge Galleguillos, outro dos "33", como o grupo é conhecido no Chile, também recordou de quando era tratado como uma celebridade e dos convites para ir a Hollywood, ao Vaticano, a Israel e ao palácio presidencial chileno. Mas o deslumbre não durou muito tempo.

"Tudo muda. No momento, todos falavam sobre mim - na imprensa, na televisão, éramos notícia de primeira página em todos os lugares - e depois ... nada", desabafou o antigo mineiro.

"Muitas promessas foram feitas e depois abandonadas. Agora estamos esquecidos. Espero que o mesmo não aconteça com eles", lamentou Galleguillos.

Ao mesmo tempo que acompanhavam o resgate dos jovens, Urzúa e outros oito mineiros tomavam medidas legais no Chile contra dois advogados que acusam de os ter defraudado sobre os direitos de um livro e do filme "Los 33", uma produção de Hollywood protagonizada pelo ator Antonio Banderas e que estreou em 2015.

Também já existem rumores de que a história dos 12 miúdos e do seu treinador vai chegar ao cinema e que produtores de Hollywood teriam até visitado o local onde fica a gruta de Tham Luang para recolherem material para uma longa-metragem com a história dos rapazes.

Foi esta terça-feira que os últimos quatro miúdos e o treinador foram resgatados do interior da gruta, mas Luís Urzua aconselha que os jovens não sejam "bombardeados" com pedidos de entrevistas e que deixem passar o tempo até que se sintam prontos para relatar aquilo que viveram.

"Espero que um dia, daqui a alguns anos, possam contar a sua história porque, como a nossa, é uma história de fé e esperança", rematou o antigo mineiro.

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