Afirmar a lusofonia e a francofonia como "contrapeso cultural" ao inglês

Representantes do espaço linguístico do português e do francês encontram-se hoje e amanhã na Sorbonne Nouvelle, em Paris, para refletir sobre novas formas de cooperação e de definição de estratégias comuns a nível mundial

Reunir os decisores e intervenientes dos espaços linguísticos do português e do francês para refletir sobre os desafios da globalização e encontrar estratégias para as duas línguas serem um contrapeso cultural ao inglês é o objetivo do Congresso da Francofonia e da Lusofonia 2017, que hoje se inicia em Paris.

Para a presidente do congresso e diretora da Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas da Universidade Sorbonne Nouvelle, a luso-francesa Isabelle de Oliveira, é fundamental a cooperação entre os dois espaços linguísticos e culturais na criação de uma escapatória para a diversidade e combate à atrofia linguística resultante da utilização de um globish de 1500 palavras em inglês, usado como veículo de comunicação no plano internacional.

Notando que, neste ponto, o espaço da francofonia está mais avançado - a França tem uma política da língua com mais de 40 anos, nota a professora -, Isabelle Oliveira defende a necessidade de uma lusofonia transformadora, a pensar no futuro, uma lusofonia solidária em que todos os Estados da CPLP colaborem ativamente em todas as áreas para que o português se possa afirmar como língua técnica, jurídica, de transmissão de conhecimentos, de dizer o mundo de uma outra maneira. Esta é uma vertente indispensável para os restantes espaços linguísticos levarem a lusofonia a sério, o que não sucede ainda, em sua opinião.

Prolongando-se por dois dias e dividido por 11 painéis, o congresso abordará temas como o francês e o português: línguas de inovação científica numa perspetiva de internacionalização da investigação, as políticas de educação nos dois espaços linguísticos, a inteligência económica: vetor de desenvolvimento e de cooperação internacional, a diplomacia cultural e a questão dos media na francofonia e lusofonia, em que participam o diretor do DN, Paulo Baldaia, e o editor executivo da TSF, Ricardo Oliveira Duarte. Isto hoje.

Amanhã, a reflexão irá centrar-se em temas como a estratégia política entre os espaços linguísticos nos organismos internacionais, o cruzamento de línguas como dinamizador da criação literária, a questão das diásporas, a igualdade entre homens e mulheres na vida política e social, oportunidades, desafios e perspetivas do universo digital, onde o português é já a quarta língua em termos de presença, nota Isabelle de Oliveira. E, se hoje o inglês é a língua mais utilizada nas plataformas digitais, este é um fenómeno que poderá não ser perene, explica a diretora da Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas da Universidade Sorbonne Nouvelle, citando estudos que apontam para o possível declínio daquele idioma.

Afirmar a lusofonia no plano internacional não passa necessariamente pela normalização da língua. Para a académica luso-francesa, a diversidade, as variantes lexicais são uma riqueza e não será a uniformização que trará maior relevo ao português no mundo. Com mais de 255 milhões de falantes, o português é a sexta língua mais falada no mundo, após o chinês, o espanhol, o inglês, o hindi e o árabe, no entanto, pesa menos do que poderia potencialmente representar, pensa Isabelle de Oliveira. E, ainda que sendo a terceira língua mais falada, o inglês detém uma posição de hegemonia como língua veicular que aponta, na opinião da académica luso-francesa, para uma situação de darwinismo cultural e de segregação linguística, fenómenos a combater por representarem um empobrecimento das culturas e dos instrumentos de comunicação. Neste ponto, além de uma convergência entre a lusofonia e a francofonia, Isabelle de Oliveira defende o alargamento à hispanidade num projeto que define como a afirmação de uma neolatinidade para melhor enfrentar os desafios da globalização.

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Nuno Artur Silva

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