Afinal nem todos os atores detestam Bolsonaro

A maioria da classe artística disse #elenão na última eleição. Mas há vedetas da TV que adoram o presidente. E que o presidente adora. Como Regina Duarte e não só.

Na manhã da última quarta-feira, Jair Bolsonaro surpreendeu a imprensa ao sair a pé, acompanhado apenas dos seguranças, do Palácio do Planalto, sede do executivo, rumo ao Congresso Nacional, sede do legislativo - dadas as relações tensas entre os dois poderes, que justificaram manifestação estimulada pelo primeiro contra o segundo, os jornalistas pensaram até que iam assistir a um conflito institucional ao vivo e a cores. Afinal, não: o presidente só queria participar numa homenagem promovida pelo deputado Alexandre Frota, do PSL, o seu partido, a Carlos Alberto de Nóbrega, veterano humorista da televisão brasileira.

"Um homem que leva alegria para todos nós no Brasil, é uma honra estar nesta cerimónia, sem humor, sem alegria, não temos razão de viver", disse Bolsonaro, depois de baralhar a sua agenda oficial, a da Câmara dos Deputados e a da imprensa. "Conheci todos os presidentes do Brasil desde o General Dutra", afirmou o ator de 83 anos, célebre pelo programa cómico "A Praça É Nossa", no canal SBT, "mas nunca nenhum tão simpático como o atual". Bolsonaro presenteou então o humorista com a camisa do seu clube, o Flamengo, e caiu numa gargalhada. Nóbrega e Frota - que fez o papel de Robin, o ajudante do Batman, num sketch do programa do homenageado - são atores e bolsonaristas. Uma raridade.

Durante a campanha eleitoral que elegeu Bolsonaro, a maioria dos artistas mais famosos junto ao público - os que participam em novelas da TV Globo, portanto - participou no manifesto #elenão, promovido por feministas mas que alastrou a toda a sociedade e que, basicamente, pedia para se votar em qualquer candidato menos no então deputado e capitão da reserva, cada vez mais destacado nas sondagens. "Porque ele é incompetente e porque em 30 anos de vida pública foi incapaz de apresentar sequer um projeto relevante que pudesse transformar a vida do povo brasileiro", disse o jovem ator Chay Suede.

Bruna Marquezine, que segundo as revistas de famosos rompeu com o namorado Neymar, apoiante de Bolsonaro, por razões políticas, engrossou o coro do #elenão. "O voto em Bolsonaro é inadmissível pela forma como ele elogia a ditadura e os torturadores", opinou Caio Blat. Patrícia Pillar, ex-mulher do candidato Ciro Gomes, Marieta Severo, ex-mulher de Chico Buarque, um dos artistas mais conotados com o PT e com Lula da Silva, Marcelo Serrado, que até havia participado em manifestações pela queda de Dilma Rousseff, acompanharam-nos. E Bruno Gagliasso, Camila Pitanga, Tássia Camargo e dezenas de outros profissionais de uma atividade quase sempre conotada com uma agenda progressista nos costumes.

José de Abreu, que dá a cara e a voz às propagandas eleitorais televisivas do PT, foi mais longe. Já depois da eleição de Bolsonaro, inspirado na atitude de Juan Guaidó em relação ao regime de Nicolás Maduro na vizinha Venezuela, autoproclamou-se, meio a sério, meio a brincar, presidente do Brasil.

Mas o presidente tem os seus atores de estimação. Além de Nóbrega - cujo apoio a Bolsonaro causou delírio nas redes sociais, principalmente na oposição, que lembrou o apoio, naquele mesmo dia, do Papa Francisco a Lula e não se cansou de comentar que "cada um tem os apoiantes que merece - destaca-se Regina Duarte, conhecida como "namoradinha do Brasil" e uma das mais relevantes atrizes da sua geração.

Foi ela, aliás, que liderou a fila dos atores pró-Bolsonaro ao longo da campanha - e já depois do sufrágio. "A homofobia dele é da boca para fora, tem um humor brincalhão dos anos 50, com brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca para fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada", desculpou, a dias da segunda volta da eleição. Desde então, ativa nas redes sociais, já pediu até a extinção do Supremo Tribunal Federal, o órgão máximo do poder judicial, alinhando-se à ala mais radical dos apoiantes do governo. E na noite do dia da homenagem de Bolsonaro queixou-se de, "sendo democrata", ser chamada "o tempo todo de fascista". "Olha que intolerância?", lamentou-se no Programa do Bial, da TV Globo.

Regina arregimentou mesmo os outros atores simpáticos a Bolsonaro, como uma espécie de retaliação ao #elenão. "Malvino Salvador convocou-me a colocar a bandeira do Brasil na janela da minha casa. Está aqui, Malvino, para a gente não esquecer nunca qual é a nossa bandeira e as cores do Brasil. Agora eu convoco Susana Vieira, Vitor Fasano, Carlos Vereza e Danilo Gentili,", disse a atriz na internet. À exceção de Gentili, que é apresentador de um programa no SBT e recentemente foi intimado a indemnizar a deputada do PT Maria do Rosário, todos os outros são, ou foram, estrelas da Globo. Um núcleo mais restrito, mais ainda assim, combativo a favor do presidente.

Os opositores do governo, no entanto, usam a internet para lembrar, com humor negro, que houve ainda mais um ator, ou ex-ator, que se declarou favorável a Bolsonaro, por mais que o presidente muito provavelmente dispensasse o seu apoio. Foi Guilherme de Pádua, que publicou vídeo a 15 de outubro, entre a primeira e segunda voltas, a pedir o voto no candidato do PSL. Pádua, hoje pastor evangélico e ex-presidiário, ficou tristemente famoso por assassinar com golpes de tesoura a colega de filmagem Daniella Perez, em 1992, na telenovela De Corpo e Alma.

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