Adiado debate sobre polémica lei de extradição em Hong Kong

O Governo de Hong Kong adiou um debate no Conselho Legislativo sobre a proposta de lei da extradição, quando milhares de manifestantes estão concentrados junto ao edifício num protesto contra o documento.

Uma nota de imprensa do Governo referiu que a sessão de debate no Conselho Legislativo (LegCo, parlamento local), que devia ter começado às 11:00 (04:00 em Lisboa) desta quarta-feira, foi adiada para "hora posterior a ser determinada". De acordo com outro comunicado, os acessos às instalações do Governo foram bloqueados e os funcionários aconselhados a não irem trabalhar.

Junto ao parlamento, milhares manifestantes, sobretudo jovens, gritavam palavras de ordem como: "Não à China!" e "Precisamos de democracia!". Uma esmagadora maioria envergava máscaras ou lenços a cobrir quase a totalidade da cara. Alguns dos manifestantes que falaram com a agência Lusa disseram estar dispostos a permanecer no local até que o Governo recue na intenção de avançar com as alterações à lei da extradição.

Hong Kong não é "uma cidade chinesa como as outras"

Munidos de óculos protetores, alguns com walkie talkies para contornar a falta de acesso à internet, armaram barricadas e taparam as câmaras de videovigilância no centro do protesto em Hong Kong. "Estamos a pedir ao Governo que abandone a proposta de lei que permite a extradição [de suspeitos de crimes] para a China", explicou à Lusa um dos manifestantes e estudante universitário de medicina Alan Patrick.

"O maior medo que tenho é que Hong Kong se torne numa cidade chinesa como as outras. Se a lei passar os chineses podem forçar as suas leis" na antiga colónia britânica, acrescentou, no meio dos manifestantes que entoavam palavras de ordem à frente do Conselho Legislativo (LegCo), onde as emendas à lei da extradição voltariam hoje a ser debatidas. "A população de Hong Kong está só a pedir democracia e liberdade para as futuras gerações", concluiu, a poucos metros de um grupo de jovens que escalava uma estrutura para tapar as lentes das câmaras de videovigilância com as páginas dos jornais do dia que dão destaque ao protesto agendado para hoje.

Andrew Yiu, outro jovem de 23 anos, sublinhou o facto de se ter equipado para qualquer confronto com as forças de segurança, sobretudo depois dos momentos mais tensos que se viveram na manifestação de domingo que, segundo os organizadores, juntou mais de um milhão de pessoas nas ruas do território semi-autónomo administrado pela China. "Por que razão devo ter medo da polícia? Estou a fazer o que é correto para Hong Kong, não é só por mim", sustentou.

Kelly Wong, de 30 anos, quase não se faz perceber no meio do ruído ensurdecedor da multidão, mas conseguiu explicar de um fôlego a oposição às alterações à lei da extradição para países como a China, com os quais não existe um acordo prévio: "Não concordamos com a lei porque não protege os nossos direitos humanos".

Isaac Tsang é o diretor executivo de um sindicato que representa trabalhadores ligados à área social. Num acessos aéreos ao complexo do Conselho Legislativo, montou com a sua equipa um espaço para fornecer informações e dar apoio aos manifestantes, sobretudo se existir uma intervenção policial. "Estamos a organizar uma greve porque todos se opõem.É uma mensagem muito forte para o Governo de Hong Kong dos cidadãos para que pelo menos adiem o processo", afirmou.

O que diz a lei da extradição

Proposto em fevereiro e com uma votação final prevista para antes do final de julho, o texto permitirá que a chefe do Executivo e os tribunais de Hong Kong processem pedidos de extradição de jurisdições sem acordos prévios.

Os defensores da lei argumentam que caso se mantenha a impossibilidade de extraditar suspeitos de crimes para países como a China tal poderá transformar Hong Kong num "refúgio para criminosos internacionais".

Opositores dizem temer que Hong Kong fique à mercê do sistema judicial chinês como qualquer outra cidade da China continental e de uma justiça politizada que não garanta a salvaguarda dos direitos humanos.

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