Adeus europeu ao polícia mau Wolfgang Schäuble

Ministro das Finanças alemão, de 75 anos, participa hoje no Luxemburgo na sua última reunião do Eurogrupo antes de assumir a presidência do Parlamento do seu país.

Para o francês Pierre Moscovici, não há dúvidas que o Eurogrupo terá "um antes e um depois" de Wolfgang Schäuble. Na véspera da participação, hoje, do veterano alemão na sua última reunião dos ministros das Finanças da zona euro antes de deixar o cargo e assumir a presidência do Parlamento, o comissário dos Assuntos Económicos - que costuma estar presente nos encontros do Eurogrupo - destaca "o sentido de humor, a inteligência, a coragem e a energia" de um homem "exigente" e "capaz de ser duro" quando é preciso.

As fotos das reuniões do Eurogrupo com os ministros à conversa à volta da cadeira de rodas de Schäuble são uma imagem a que nos habituámos nos últimos oito anos. Mais antigo deputado ao Parlamento alemão, Schäuble foi alvo de uma tentativa de assassínio em 1990 que o deixou paralisado da cintura para baixo. À frente do ministério das Finanças desde 2009, este homem sem papas na língua ganhou fama de intransigente sobretudo na crise da dívida grega, tendo defendido uma saída da Grécia do euro, mesmo que temporária. Uma posição dura que ainda hoje lhe vale muitos ódios entre os gregos.

Também em relação a Portugal o alemão deixou pairar, durante o auge da crise, a ameaça de um segundo resgate. Mas nos últimos meses não poupou elogios ao "grande sucesso" do país.

Em entrevista ao Financial Times no dia 6, Schäuble, com 75 anos acabados de fazer, admitiu: "Dei cabo dos nervos dos meus colegas e na segunda-feira [hoje, no Luxemburgo] vamos ter oportunidade de nos despedir e partilhar memórias. E claro que nem todos ficarão tristes por já não ter de lidar comigo". Mas garantiu: "Sempre tivemos grande espírito de equipa no Eurogrupo".

Michel Sapin, ministro das Finanças francês entre 2014 e maio de 2017, foi um dos que discordou da posição de Schäuble em relação à Grécia, descrevendo uma saída temporária do euro como "um grande erro". O socialista reconhece ter agora dúvidas sobre se o alemão agia "por convicção ou se era uma tática. E conta como havia "um jogo subtil entre ele e a chanceler [Angela Merkel], espécie de polícia bom-polícia mau." Mas Sapin admite ter saudades de um homem "delicioso".

Na despedida de Schäuble também Thomas Wieser lamentar a saída de "um espírito claro e analítico". O austríaco, alto responsável da zona euro e encarregue da preparação das reuniões do Eurogrupo confessou à AFP ter "quase a certeza de que lhe estão a preparar uma grande homenagem", mas "conhecendo a sua personalidade, ele não se vai mostrar nada sentimental", brinca.

A saída de Schäuble, grande defensor da austeridade e rigor orçamental, vai marcar uma redefinição dentro do próprio Eurogrupo, até por coincidir com o fim do mandato do presidente daquele órgão informal, Jeroen Dijsselbloem, seguidor da mesma linha dura. O holandês deverá deixar o cargo em janeiro, apesar de a Holanda esperar para esta semana o anúncio do novo governo após as eleições de 15 de março.

Com Schäuble na presidência do Parlamento - a primeira sessão deve ter lugar a 24 de outubro, 30 dias depois das eleições que viram a CDU vencer mas longe da maioria absoluta - a dúvida é quem vai ocupar a pasta das Finanças no novo governo alemão. Com os sociais democratas do SPD a rejeitarem uma nova Grande Coligação, Merkel procura convencer liberais do FDP e Verdes a juntarem-se à sua CDU numa coligação Jamaica (amarelo, verde e preto - as cores dos partidos e da bandeira daquele país).

Tudo aponta para que o sucessor de Schäuble seja do FDP, com o número dois do partido, Wolfgang Kubicki, um advogado fiscalista há muito envolvido na política do seu Schleswig-Holstein, a ser apontado como favorito, uma vez que o líder, Christian Lindner, parece descartar essa opção. Mas há mais candidatos, do eurodeputado Alexander Graf Lambsdorff ao diretor do Banco Europeu de Investimento, Werner Hoyer, passando por Volker Wissing, ministro da Economia da Renânia-Palatinado. Mas seja ele quem for, um ministro do FDP deverá ser menos aberto do que o europeísta Schäuble às propostas de reforma da zona euro apresentadas pelo presidente francês, Emmanuel Macron.

Se o FDP é quase certo nas Finanças, os Verdes deverão ficar com o ministério dos Negócios Estrangeiros. As negociações formais, essas, só devem começar no dia 15, depois das eleições regionais na Baixa Saxónia, onde a CDU era dada como favorita, mas onde tem vindo a perder terreno para o SPD.

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