Abusos sexuais e temas políticos na visita do Papa ao Chile e ao Peru

Francisco chega hoje ao Chile, onde ocorreram ataques contra igrejas, e deve enfrentar protestos contra um bispo que terá protegido um padre pedófilo. Na quinta-feira vai para o Peru, em plena crise pelo indulto presidencial a Fujimori

O Papa Francisco parte hoje para o Chile, numa viagem apostólica que o levará também ao Peru, com o intuito de partilhar com todos "a paz do Senhor". Mas a visita de oito dias promete ficar marcada pelos escândalos sexuais que envolvem a Igreja de ambos os países, com a ameaça de protestos diários no Chile, onde cinco igrejas católicas foram vandalizadas na semana passada. No Peru, Francisco chega em plena crise política desencadeada pelo indulto do presidente Pedro Pablo Kuczynski a Alberto Fujimori.

A primeira viagem apostólica do líder da Igreja Católica em 2018 leva--o de volta ao continente americano. O Papa argentino deixa Roma às primeiras horas da manhã e chega a Santiago às 20.00 locais (23.00 em Lisboa), com a agenda a começar oficialmente na terça-feira. No Pálacio de La Moneda reunirá não apenas com a presidente Michelle Bachelet mas também com o presidente eleito Sebastián Piñera, que após quatro anos de hiato voltará a assumir as rédeas do país em março.

A visita ao Chile ocorre em plena onda de protestos pela nomeação do padre Juan Barros como bispo de Osorno, apesar das acusações de que facilitou e encobriu os abusos sexuais a adolescentes do sacerdote e do seu antigo mentor Fernando Karadima. Apesar de negar os abusos, Karadima foi considerado culpado por uma investigação do Vaticano. O caso ganhou novos contornos na véspera da chegada do Papa, depois de ser conhecida uma carta que este escreveu em 2015 aos bispos locais e que revelava que o Vaticano ia pedir a Barros que tirasse um ano sabático quando deixasse o seu anterior posto, em 2014, mas esses planos acabaram frustrados.

Francisco chegou ao mais alto cargo da Igreja Católica prometendo tolerância zero com os casos de abusos sexuais e criou uma comissão especial para os investigar. Contudo, cinco anos depois, essa promessa está a ser posta em causa com a saída de vários membros seniores do grupo que acusam o Vaticano de arrastar o processo. O Chile é o país da região mais afetado pelas denúncias de crimes sexuais de padres e isso afetou a credibilidade da Igreja - que era elevada pela defesa da justiça e dos direitos humanos durante a ditadura de Pinochet (1973-1990). Uma sondagem do Latinobarómetro revelou que o número de chilenos que se consideram católicos caiu para 45% no ano passado face aos 74% em 1995.

Na sexta-feira houve uma série de ataques contra igrejas em Santiago, incluindo uma com um artefacto explosivo caseiro, tendo sido deixado um aviso: "Francisco, a próxima bomba estará na tua túnica." O governo chileno garante contudo a segurança do líder da Igreja Católica. Durante a sua viagem, Francisco vai reunir-se com vítimas do regime de Pinochet, não estando para já previsto encontrar-se com vítimas de abusos sexuais.

O Papa vai estar ainda com mapuches, indígenas que reclamam a devolução das terras que lhes terão sido roubadas pelos militares no final do século XIX. A ideia é dar visibilidade à sua luta (que se tem intensificado e já originou conflitos com a polícia), mas poderá enfrentar também os seus próprios protestos - muitos acusam a Igreja Católica de cumplicidade no roubo das terras. Do outro lado da fronteira, Francisco estará com as comunidades indígenas de Puerto Maldonado, para discutir o problema da desflorestação da Amazónia.

Na agenda chilena estão três missas: em Santiago, Temuco e Iquique, que contarão com muitos fiéis argentinos. No regresso ao continente, o Papa volta a não pisar o seu país natal - alega-se que teme o uso político de tal viagem. Por isso, milhares de argentinos vão cruzar a fronteira para ter a oportunidade de o ver.

Visita ao Peru

Na quinta-feira, Francisco começa a sua visita ao Peru, devendo as polémicas dos abusos sexuais segui-lo. Na semana passada, o Vaticano assumiu o controlo de uma sociedade católica de elite, cujo fundador, o leigo Luis Figari, é acusado de abusos sexuais e físicos a menores e antigos membros do grupo.

Mas o tema que domina neste momento a sociedade peruana é a crise política, desencadeada pelo indulto de Kuczynski a Fujimori. O ex-presidente, 79 anos, cumpriu menos de metade da condenação a 25 anos por corrupção e crimes contra os direitos humanos durante os seus mandatos (1990-2000). Foi indultado por razões de saúde na véspera de Natal pelo presidente, depois de este escapar a um processo de destituição no Congresso (pelas alegadas ligações à construtora brasileira Odebrecht, que distribuiu subornos pela região) graças à abstenção de dez deputados fujimoristas. Muitos peruanos ainda apoiam o ex-presidente, considerando que ajudou a pacificar o Peru e recuperou a economia. Numa anterior viagem à América Latina, o Papa considerou a corrupção "a peste, a gangrena da sociedade".

A viagem do Papa ao Peru passa por Lima, Puerto Maldonado e Trujillo, longe da zona sul do país, afetada ontem pelo sismo de magnitude 6,8. Há registo de pelo menos um morto, um homem esmagado por uma rocha em Yauca, e 17 desaparecidos numa mina em Chala. O presidente pediu calma e tranquilidade ao visitar a zona afetada.

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