A portuguesa que está na organização da Marcha Civil por Aleppo

Partindo de Berlim a 26 de dezembro, a ideia é, três meses mais tarde, chegar à fronteira da Turquia com a Síria. A longa caminhada começou com um post no Facebook depois de ter sido divulgado um vídeo com enfermeiras a retirarem bebés das incubadoras

Chegou um momento em que era preciso fazer mais. Já não bastava partilhar a revolta nas redes sociais. "É uma tomada de posição. Chega de cliques e de partilhas no Facebook. Vamos sair dos computadores e ir mais longe", resume ao DN Joana Simões Piedade, uma das duas portuguesas envolvidas no núcleo duro que está a organizar a Marcha Civil por Aleppo.

Com início marcado para Berlim no próximo dia 26, gente de várias latitudes dará início a uma longa caminhada para chamar a atenção da sociedade civil e dos responsáveis políticos para o drama da guerra. Em três meses esperam chegar à fronteira da Turquia com a Síria.

Não é preciso que sejam os mesmos a fazer todo o percurso. Joana, por exemplo, estará no arranque, em Berlim, acompanhada do marido e da filha de quatro anos, e prevê marchar apenas durante alguns dias. A ideia é ir passando o testemunho. "Em cada país as pessoas podem juntar-se, nem que seja por alguns dias ou apenas umas horas", explica a jornalista freelancer.

Tudo começou com um post no Facebook publicado por uma amiga polaca. A 20 de novembro, as imagens de enfermeiras a retirarem bebés das incubadoras depois de mais um ataque aéreo a um hospital em Aleppo chegaram aos noticiários. Anna Alboth escreveu na rede social qualquer coisa como: "Será que não podemos fazer nada? Será que se fosse a Aleppo poderia fazer alguma diferença? Se eu fosse, alguém viria comigo?". Joana respondeu que sim. E outros fizeram o mesmo. "Aquelas imagens também me chocaram mais do que todas as outras. Não há nada mais vulnerável do que um bebé prematuro numa incubadora", conta.

A partir daí pôs-se em andamento o plano para organizar a marcha. "No início era algo centrado em 20 pessoas, depois, a partir dos nossos contactos, passámos para 50". Os organizadores esperam que em Berlim, no arranque, compareçam três mil pessoas. O trajeto até à Síria é simbólico. Trata-se de fazer o percurso inverso àqueles que fugiram da guerra. "Se será eficaz como chamada de atenção? Não sabemos. Mas é uma tentativa".

Depois de rumar à Alemanha para caminhar por Aleppo, Joana Simões Piedade irá fazer voluntariado num campo de refugiados na Grécia, entre 10 e 24 de janeiro.

Licenciada em Direito, dedicou-se ao jornalismo pouco tempo depois de ter acabado o curso. Colaborou com várias revistas em Portugal, passou por Washington num estágio no gabinete de imprensa do Banco Mundial e depois trabalhou em Angola, primeiro na redação do País, depois no grupo Zwela e por fim na delegação em Luanda do jornal Sol.

O campo na ilha grega de Chios, muito próxima da Turquia, não será a sua primeira experiência como voluntária. Em 2008, através de uma ONG, esteve em Mardin, no sudeste da Turquia, uma zona de maioria curda, a 30 quilómetros da fronteira com a Síria. O projeto passava pela reconstrução de uma escola para crianças curdas. "Sente-se uma repressão cultural muito grande. Há um povo que quer falar a sua língua, mas as crianças são obrigadas a aprender turco", conta Joana.

Já neste ano, antes de voltar a assentar armas e bagagens em Portugal, pegou no marido e na filha e os três passaram sete meses a viajar pelo mundo. Na Bolívia, como a foto documenta, foram bem recebidos pelos lamas locais.

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