A onda azul sucede à marcha rosa

Um ano após a Marcha das Mulheres, milhares voltaram a Washington e outras cidades da América no primeiro aniversário da posse de Trump. O dia ficou marcado pelo shutdown do governo, mas não desviou os manifestantes do objetivo: levar as mulheres às urnas e garantir a vitória dos democratas em novembro.

"Orgulhosa americana muçulmana", lê-se no cartaz de Seema Sked. Letras azuis e vermelhas com estrelas brancas, numa homenagem à bandeira dos EUA. "Sou emigrante, sou muçulmana, sou americana e sou casada com um católico. Fizemos estes cartazes juntos", diz. Este "prova que não se pode separar a minha religião daquilo que eu sou", o outro cartaz que segura "representa o máximo de pessoas possível". E aponta para o crescente e a estrela do islão, a cruz, a estrela de David, mas também o símbolo LGBT ou o paz e amor. É para lutar por todas estas pessoas, que Seema veio a Washington participar na Marcha das Mulheres, um evento que se repetiu em cidades de Nova Iorque a Los Angeles.

Um ano depois de a capital ter recebido quase meio milhão de pessoas (mais de 2,5 milhões a nível nacional) no primeiro dia de Administração Trump, milhares quiseram assinalar o primeiro aniversário da presidência com um novo protesto, reunindo-se no Memorial a Lincoln. A data ficou marcada pelo shutdown, ditado pela falta de entendimento entre democratas e republicanos no Congresso para prolongar o financiamento do governo, deixando parte da Administração pública paralisada.

Uns culpam os democratas por insistirem num acordo que prolongue os direitos dos dreamers, os 800 mil filhos de imigrantes ilegais entrados nos EUA quando eram menores, sem se preocuparem com o financiamento, outros culpam os republicanos, incapazes de de fazer passar uma proposta apesar de terem maioria nas duas câmaras do Congresso. E muitos culpam o presidente Donald Trump por não conseguir um acordo. Este teve de cancelar a viagem à Florida, onde tinha um jantar de recolha de fundos marcado para celebrar o primeiro aniversário do seu mandato.

"Fico furiosa quando o oiço!", confessa Seema, nascida no Paquistão, mas vindas para os EUA em bebé. Mas, garante, as palavras do presidente, muito duras com os imigrantes, também lhe dão "vontade de lutar. Lutar com amor. Por mim e pelos outros".

Alissa já nasceu nos EUA, mas a família veio de Itália e foi para garantir os direitos de quem chega hoje que repetiu a presença na marcha. "Este é um país de imigrantes", lembra, antes de ser interrompida pela amiga Amy para quem "estas políticas não são muito americanas". Ambas da Virgínia, mais do que protestar contra Trump, vieram apelar às mulheres e a todos os liberais para que vão votar. Em ano de intercalares, as eleições de novembro em que estão em jogos os 435 lugares da Câmara dos Representantes e um terço dos cem senadores, isso é mais importante do que nunca. "Não podemos deixar que a situação se repita", garante Alissa, antes de lançar: "o shutdown é o pior presente que Trump podia ter tido".

A ideia é aproveitar a vaga de fundo nascida há um ano e levar as mulheres não só a votar, mas também a serem candidatas. O Power to the Polls - um dos organizadores da marcha -, acredita que vai conseguir registar um milhão de novos eleitores.

Susan Beffel empunha um cartaz com essa mensagem: uma onda azul (cor dos democratas) a desafiar: "Vem e Vota!". Membro da organização Indivisible, formada em 2016, é com orgulho que diz vir "da zona mais azul da Virgínia". E lembra que se esta é a Marcha das Mulheres, nada se pode fazer sem os homens. Johan von Knorring ("o nome é alemão") avança logo para explicar que já esteve em Washington há um ano. "É preciso solidariedade. Os problemas das mulheres são problemas dos homens também". Quanto ao shut-down, lamenta que os democratas "tenham apresentado compromissos e o presidente os tenha rejeitado todos. Cada dia traz uma nova crise"

Apesar do tom pessimista, o clima em Washington é de festa neste sábado. À saída do metro de Foggy Bottom, vendem-se T-shirts e pins alusivos aos direitos das mulheres. "Todos os tamanhos, todos os feitos e todas as cores, Como vocês, minha senhoras!", apregoa um dos vendedores. Junto ao espelho de água fotografam-se cartazes, encetam-se conversas e ouve-se música enquanto se espera pelos discursos dos políticos como Nancy Pelosi, a líder da minoria na Câmara dos Representantes, que, não estando no programa, apareceu para saudar as mulheres que "marcharam e agora se candidataram".

Enviada especial a Washington

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João Gobern

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