A Miss Sarajevo que inspirou os U2 lembra o dia em que pediu para não morrer

Numa cidade cercada, um homem organizou um concurso de beleza. Inela Nogic venceu e tornou-se "Miss Sarajevo". Vive em Amesterdão.

Tinha acabado de fazer 17 anos quando se tornou um símbolo da resistência de Sarajevo durante a guerra, na década de 1990. Vestida com um biquíni branco, de cabelo loiro e curto e com os olhos verdes a brilhar num misto de sensações, Inela Nogic foi eleita a rainha de beleza da cidade. No palco, enquanto as bombas caíam lá fora, uma faixa lançava um apelo ao mundo: "Don"t let them kill us". "Não deixem que eles nos matem" era a frase que estava prestes a começar a correr o planeta, difundida pelas televisões estrangeiras.

Foi o grito que naquele dia saiu da capital bósnia e fez eco nos noticiários internacionais. "Nunca pensei em mim como um símbolo da guerra", confessa Inela, 25 anos depois daquele dia, em conversa com o DN, à mesa de um café em Amesterdão. A capital holandesa é a cidade que há muito escolheu para viver com os filhos gémeos. Mia e Mak têm 16 anos.

Após a vitória na competição, o seu rosto tornar-se-ia ainda mais icónico depois de os U2, a banda rock irlandesa, acompanhados pelo tenor italiano Luciano Pavarotti, terem gravado a canção Miss Sarajevo. Inela nunca se sentiu especialmente identificada com o tema. Em 1995, Brian Eno, músico, compositor britânico e produtor dos U2, telefonou-lhe para dar-lhe a conhecer o que tinham feito.

"Fiquei muito surpreendida, mas, quando ouvi, confesso que não gostei. A letra é perfeita, mas a música não faz o meu género. Hoje em dia já gosto mais", conta. Será que algo na sua vida mudou por ter passado a ser a imagem de um vídeo e de um single dos U2? A resposta chega depressa e sem hesitações: "Não. Nada. Absolutamente nada".

Mudar a imagem da cidade

Diz-se nos Balcãs que a Bósnia começa onde a lógica acaba. Poucas vezes esta afirmação terá sido tão verdadeira como naquele 29 de maio de 1993. Há mais de um ano que Sarajevo estava cercada. Todos os dias, os bombardeamentos e os disparos dos atiradores furtivos, escondidos nas montanhas que envolvem os prédios, faziam novos mortos.

Às vezes havia luz. Comida muito pouca. Água nas torneiras quase nunca. Era preciso arriscar morrer para ir buscá-la aos pontos de distribuição. A vida ia-se improvisando hora a hora. E a sobrevivência muitas vezes passava por atravessar as ruas a correr, numa tentativa de escapar às balas dos snipers. Não, não faria qualquer sentido, naquelas condições, organizar um concurso de beleza. Mas a Bósnia, afinal, começa onde a lógica acaba.

"As únicas imagens que as televisões estrangeiras mostravam das pessoas de Sarajevo eram de senhoras velhinhas com lenços na cabeça. Era preciso mudar essa ideia. Foi por isso que me lembrei de fazer aquilo", conta ao DN Dino Beso, o homem que pôs de pé a competição e que na altura liderava o gabinete de imprensa e propaganda do exército bósnio. Não tinha qualquer experiência como militar, mas foi escolhido para assumir o posto pelos conhecimentos que acumulara a trabalhar nos departamentos de marketing de vários órgãos de comunicação social, incluindo o Oslobodenje, o principal diário bósnio.

As únicas imagens que as televisões estrangeiras mostravam das pessoas de Sarajevo eram de senhoras velhinhas com lenços na cabeça. Era preciso mudar essa ideia

A tarefa que Dino tinha pela frente era hercúlea. E arriscada. As dificuldades logísticas para organizar o concurso eram quase incalculáveis. Nem mesmo as coisas mais simples e essenciais estavam garantidas, como, por exemplo, a eletricidade. Decidiu por isso expor a ideia ao então presidente bósnio, Alija Izetbegovic. Com a luz verde do líder do país seria mais provável ultrapassar alguns dos entraves. O político deu-lhe o apoio de que precisava e com isso conseguiu garantir combustível suficiente para alimentar um gerador, caso o fornecimento de luz elétrica falhasse.

Outro dos passos seguintes era divulgar a iniciativa. Estava fora de questão anunciá-la de forma pública e muito menos apregoar o local do evento pois os riscos seriam enormes. Era quase certo que a notícia chegaria aos ouvidos dos inimigos sérvios e uma aglomeração de gente no mesmo lugar seria um alvo fácil e apetecível. A informação foi assim passando de boca em boca e, aos poucos, foram surgindo as inscrições das candidatas. O concurso esteve originalmente agendado para 24 de maio, mas foi adiado no próprio dia devido aos bombardeamentos intensos.

Inela conta que foi a mãe quem decidiu inscrevê-la. "Ela e uma amiga. Quando chegou a casa chamou-me para o quarto, para não me contar à frente do meu pai. Respondi-lhe que não, que ela estava louca e que eu não queria ir." Os amigos de Inela, porém, acabariam por convencê-la. "Um dos prémios de que se falava para quem ganhasse era uma viagem a Espanha. Insistiram comigo, dizendo que poderia ser uma hipótese de sair de Sarajevo e, quem sabe, talvez depois arranjássemos maneira de eles irem ter comigo. Um sonho completamente louco", relata.

"Todas as raparigas naquele dia irradiavam uma beleza vinda de dentro, mas a Inela, de alguma forma, estava acima das outras. Tinha carisma, uma energia especial", relembra Hanka Paldum, uma conhecida cantora bósnia que fez parte do júri da competição. Hoje com 62 anos, Hanka não hesita em sublinhar a relevância daquele dia: "Foi determinante para mostrar ao mundo o nosso espírito e a nossa capacidade de resistência. E foi sobretudo importante para nós, para sentirmos que estávamos vivos. Pelo mesmo motivo, as mulheres também nunca deixaram de se arranjar a preceito durante a guerra."

Todas as raparigas naquele dia irradiavam uma beleza vinda de dentro, mas a Inela, de alguma forma, estava acima das outras

A arte foi outra das armas a que os habitantes de Sarajevo recorreram para lutar pela sobrevivência. Hanka recorda--se de dar vários concertos durante o cerco, em caves ou salas improvisadas para o efeito. Mesmo perante a carência dos bens essenciais, algumas discotecas continuaram a funcionar sempre que era possível. Dançar e ouvir música funcionavam como um porto de abrigo enquanto as bombas continuavam a cair lá fora. E também o humor era uma arma de arremesso e conforto. Mesmo que muitas vezes demasiado negro. No documentário de Bill Carter (ver entrevista), intitulado Miss Sarajevo, e também no seu livro Fools Rush In, há referência a uma anedota que circulava pela cidade quando os dias de inverno faziam os termómetros descer vários graus abaixo de zero: "Sabem a diferença entre Sarajevo e Auschwitz? Em Auschwitz pelo menos havia gás".

Cartas de porta em porta

Os pais de Marija Misic tinham plantado sementes de tomate numa das varandas de casa. Um dos frutos começou a nascer devagarinho. A ideia era apanhá-lo apenas quando já estivesse vermelho e maior. E dividi-lo pelos três filhos. "Passei dias a olhar para o tomate, a vê-lo crescer, à espera que chegasse o dia de o comermos. Houve uma noite em que me levantei da cama e fui comê-lo. Fiquei muito chateada comigo porque não agi de propósito. Tinha tanta fome que fiz tudo sem pensar", recorda Marija, em conversa com o DN. Foi ela a terceira classificada no concurso Miss Sarajevo. Também ela ficou imortalizada no teledisco dos U2.

Hoje vive em Belgrado com o marido, de nacionalidade alemã, que trabalha como diplomata para a Comissão Europeia. Têm quatro filhos. O mais novo tem 2 anos e a mais velha sete. Apesar de muito jovens, as crianças ouvem as conversas dos adultos e quando visitam os avós em Sarajevo ainda veem prédios com buracos de balas. Fazem perguntas. Querem saber que passado de guerra é esse que a mãe carrega. "Não lhes respondo. Quando forem mais velhos conto-lhes a história. Para já ainda não quero", diz Marija.

Numa realidade em que um pequeno tomate tinha tanto valor, parecia-lhe no mínimo absurda a sugestão das amigas para que entrasse no concurso de beleza. Disse-lhes que não, mas elas contaram-lhe que já tinham dado o seu nome aos organizadores.

Foram vários os papéis que Marija foi desempenhando durante a guerra. "Costumo dizer que experienciei três fases. A primeira passou por ajustar-me à situação, sem saber muito bem o que fazer. A segunda fase foi a da sobrevivência, quando já não havia comida, nem luz, nem água. Tudo se resumia a tentar viver um dia após o outro. A terceira foi quando percebi que tinha de fazer alguma coisa para ajudar os outros", resume. Primeiro conseguiu emprego na televisão.

Apesar dos riscos, todos os dias saía para a rua para descobrir e informar sobre os locais e as horas prováveis de distribuição de água, para relatar os ataques e as mortes. Para tentar obter todas as informações que pudessem ser úteis numa cidade cercada. Ao mesmo tempo, cortava os cabelos às vizinhas e, fazendo uso dos conhecimentos que já tinha adquirido como estudante de Medicina Dentária, tratava dos dentes a quem a ela recorria.

Alguns meses depois, deixou a televisão e passou a colaborar com a Cruz Vermelha na distribuição de cartas e pequenos bilhetes. Levava de porta em porta as mensagens que chegavam de fora e recolhia as missivas que os habitantes de Sarajevo queriam enviar para os familiares no exterior. "Foram momentos muito emotivos. Quando recebiam uma carta, as pessoas ficavam tão agradecidas que queriam dar-me o último bocadinho de pão", recorda Marija. "Era uma jovem hiperativa e com um coração enorme", explica o pai, Mijo Misic. "Eu queria que ela ficasse em casa, mas um dia disse-me com lágrimas nos olhos que queria ajudar as pessoas."

Um grito que chegou à Casa Branca

Antes da competição houve três ou quatro semanas de preparativos. Era preciso ensaiar o espetáculo, reunir roupas, percorrer a cidade à procura de maquilhagem, aprender a desfilar na passerelle. "Depois de ter colaborado na eleição da Miss Jugoslávia durante vários anos, acabou por ser simples trabalhar com aquelas raparigas", explica ao DN Gordana Magas, a bailarina que funcionou como professora das concorrentes. "A maior preocupação foi sempre a segurança. De que forma seriam capazes de chegar ao local combinado? Voltariam depois a casa sãs e salvas?", acrescenta.

A maior preocupação foi sempre a segurança. De que forma seriam capazes de chegar ao local combinado?

"Lembro-me bem dessa fase. Às vezes havia encontros, outras vezes não. Nem sequer sei como nos conseguíamos coordenar, tendo em conta que não havia sequer telefones", conta Marija, à mesa de jantar da vivenda em Belgrado. A conversa vai sendo interrompida pelo filho mais novo, que pede a atenção da mãe e que vai combatendo o sono. O resto da família continua a morar em Sarajevo. Foi lá, na cafetaria do Hotel Europa, no centro da capital bósnia, que o DN se sentou para falar com o pai, a mãe e Igor, o irmão mais novo de Marija, que hoje tem 31 anos.

"Não tinha qualquer lógica deixá-la participar. Era demasiado perigoso. Qualquer reunião de muitas pessoas era arriscada por causa dos bombardeamentos. Na nossa família, por exemplo, tínhamos algumas regras. Nunca dormíamos todos na mesma divisão. Aquela não era apenas uma guerra entre exércitos. Os civis eram os alvos."

No dia do concurso, Milena, a mãe de Marija, ficou em casa, mas o pai fez questão de estar presente. Quando chegou ao BKC, o Centro Cultural Bósnio, onde o evento estava prestes a começar, foi quase impossível acreditar no que estava a ver: "Fiquei estupefacto com o aparato mediático. Parecia que estava a sonhar. É surreal imaginar tantos jornalistas de guerra num concurso de beleza. Nesse momento percebi que algo com muito significado estava a acontecer. Quando depois vi as notícias tive noção de que nesse dia um grito tinha saído de Sarajevo, um grito que dizia que estávamos vivos e que éramos pessoas normais a tentar viver uma vida normal."

Segundo conta Dino Beso, o eco desse grito fez-se ouvir em Washington, na Casa Branca. "Quando Bill Clinton veio cá, disse-me que foi ao ver as concorrentes com a faixa que dizia don"t let them kill us, que começou verdadeiramente a pensar no destino da Bósnia."

"Todos os momentos da competição foram marcantes, especialmente o final, com a mensagem "não deixem que eles nos matem", sublinha Magas. "As raparigas queriam mostrar ao mundo que existiam, que eram belas, jovens e vulneráveis. Queriam pedir ajuda para que alguém acabasse com todo aquele sofrimento e tristeza que lhes marcou os anos de juventude. Todas foram vencedoras", acrescenta a ex-bailarina.

Adeus Sarajevo

Nas semanas e nos meses que se seguiram ao concurso, Inela e Marija foram muito solicitadas para sessões de fotografia. Trabalharam juntas como manequins, numa cidade em guerra, até que acabaram por seguir cada uma o seu caminho. Inela casou-se em Sarajevo, em setembro de 1993, ainda menor de idade - os pais tiveram de dar o consentimento. Apaixonara-se por um holandês, Marco Okhuizen, 11 anos mais velho, que trabalhava para a imprensa francesa. "Antes de o conhecer tive um sonho que nunca tinha tido antes e que nunca mais voltei a ter. Eu estava no mar, a nadar em direção a Itália, e enquanto nadava ia falando em inglês com alguém. Disseram-me que esse sonho significava que iria conhecer uma pessoa de fora e que deixaria a cidade. Coincidência ou não, foi o que aconteceu."

Inela e Marco deixaram Sarajevo em 1994. Depois de uns curtos dias em Roma, em casa de uma amiga italiana, e de algumas semanas em Paris, estabeleceram-se por fim em Amesterdão. Ao mesmo tempo que ia trabalhando como modelo em desfiles e sessões fotográficas, Inela foi estudando e começou a trabalhar como designer gráfica. Ainda hoje é essa a sua profissão.

Só regressaria a Sarajevo no final de 1995, já depois de assinados os acordos de paz de Dayton. "Fizemos a viagem de autocarro. Lembro-me de que quando chegámos estava um nevoeiro impossível, não se via nada à frente do nariz. De repente, no meio daquela neblina, descortinei a silhueta dos meus pais e da minha irmã, que estavam à nossa espera. Foram emoções muito fortes", relembra. O casamento chegaria ao fim em 1999 e no ano seguinte Inela decidiu voltar a instalar-se na cidade natal. Foi lá que conheceu aquele que viria a ser o pai dos seus dois filhos.

Fizemos a viagem de autocarro. Lembro-me de que quando chegámos estava um nevoeiro impossível, não se via nada à frente do nariz.

Saturada da guerra e incapaz de continuar a tropeçar na morte todos os dias, Marija conseguiu sair de Sarajevo em 1994. Primeiro rumou até à Croácia e depois de alguns meses em Split, em casa de familiares, comunicou aos pais que estava de partida para os EUA. Até 2003 viveu na Florida e a primeira visita a Sarajevo aconteceu apenas em 1999, cinco anos depois de ter dito adeus à família. "Encontrei uma cidade diferente. Foi uma sensação estranha. Tinha-me tornado adulta nos EUA e aquele já não era o meu mundo. Ainda se sentia a guerra, mas, curiosamente, as pessoas estavam muito mais felizes do que agora. Era um tempo de reconstrução, havia esperança no futuro. Hoje, mais de 20 anos depois, o que existe é desilusão com o estado do país", lamenta.

Nos anos que passou nos EUA, Marija Misic, que em Sarajevo frequentava as aulas de Medicina Dentária, acabou por licenciar-se em Economia e Administração de Empresas. Para financiar os estudos teve vários trabalhos temporários. Um deles foi a limpar as mesas de um restaurante de fast food. Estávamos no ano de 1995 e os U2 tinham acabado de editar o teledisco Miss Sarajevo. Um dia, em casa, a ver televisão, tropeçou com a música e com as imagens. Ali estava ela. No palco do BKC, ao lado de Inela Nogic e das restantes concorrentes. No dia seguinte, contou aos colegas de trabalho. Foi difícil acreditarem que alguém que dividia com eles as tarefas de limpeza pudesse estar em destaque num videoclip da gigantesca banda irlandesa.

Em 2003, para estar perto dos pais, Marija fez as malas e mudou-se de novo para a capital bósnia. A adaptação não foi fácil. "Depois de dez anos era difícil integrar-me outra vez na mentalidade balcânica." Foi quando estava a ponderar cruzar novamente o Atlântico e regressar aos EUA que, em 2007, conheceu o marido, Steffen, que nessa altura estava destacado numa missão em Sarajevo. A recente mudança da família para Belgrado deu-se há dois anos e meio, depois de Steffen ter recebido novas ordens de Bruxelas. Ironia do destino, hoje Marija sente-se em casa na capital do país que nos anos 1990 era o inimigo mortal da Bósnia. "Vim sem preconceitos e as pessoas têm sido maravilhosas." Agora está a tirar um mestrado em comunicação ao mesmo tempo que escreve um popular blogue sobre maternidade.

No início do passado mês de março, foi convidada para ir falar à televisão. Deram-lhe 30 minutos de tempo de antena no canal estatal sérvio: "Julgo que terá sido a primeira vez que alguém de Sarajevo deu o seu ponto de vista sobre a guerra na televisão nacional. Fui diplomática mas falei de forma emotiva. Recebi muitos e-mails a dizerem-me que tinha sido corajosa. E apenas um num registo radical e fundamentalista."

Vida à flor da sorte

Todas as participantes no concurso Miss Sarajevo sobreviveram à guerra, mas entre a vitória de Inela Nogic e o fim do cerco da cidade foram ainda muitas as vidas que se perderam. Segundo a contabilidade oficial, o cerco da cidade, o maior da história moderna, durou 1425 dias e saldou-se em pelo menos dez mil vítimas mortais.

Um dia, Marija e o pai tinham ido buscar água. O percurso, com cerca de dois quilómetros, implicava atravessar uma ponte que era um dos locais mais perigosos por causa dos snipers. Não havia regra: os atiradores furtivos tanto podiam disparar sobre o primeiro como sobre o segundo. Marija avançou. A correr. "Comecei a ouvir as balas a caírem mesmo ao meu lado", recorda. "Não fui atingida e escondi-me atrás de um elétrico que esteve parado naquele cruzamento durante a guerra inteira. O meu pai viu tudo. Estava tão em choque que a seguir atravessou a andar. Nem sequer correu. Chegou ao pé de mim e abraçou-me."

Hoje, depois de ser mãe, Marija confessa que olha para trás de forma diferente: "A sensação que tenho é que nunca deixaria os meus filhos fazerem o que eu fiz. Hoje percebo melhor tudo aquilo por que os meus pais passaram. Tenho clara noção da heroína que a minha mãe foi para conseguir alimentar-nos e fazer refeições a partir do nada.

A sensação que tenho é que nunca deixaria os meus filhos fazerem o que eu fiz.

A guerra faz-se de morte e de vida à flor da pele. À flor da sorte. "Nunca me senti tão vivo como naqueles anos. Nunca vivi de forma tão intensa e tão profunda", conta Mijo Misic. "Nesses momentos, o lado melhor dos seres humanos também vem ao de cima. As pessoas aproximam-se e ajudam-se. Depois, no fim da guerra, cada um segue a sua vida", acrescenta Marija. Há lógicas que acabam quando a paz começa. Não apenas na Bósnia.

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