"A língua é a alma de um povo", dizia o jornalista brasileiro morto em acidente de helicóptero

Ricardo Boechat, de 66 anos, morreu esta segunda-feira num acidente de helicóptero em São Paulo. No ano passado, gravou um vídeo para o lançamento do projeto Plataforma Media, do Global Media Group, falando sobre o valor da língua portuguesa

O que vale a língua portuguesa? À pergunta, feita no âmbito do lançamento da Plataforma Media, em 2018, o jornalista Ricardo Boechat, respondeu o ano passado: "A língua é a alma sonora de um povo. Eu confesso que nós nem tínhamos direito a noção do que significava a alma e muito menos ainda o que fosse um povo. Mas nossos olhos brilhavam diante daquele aviso de que algo supremo nos pertencia. Desde sempre e para sempre".

Boechat, de 66 anos, morreu esta segunda-feira, vítima de um acidente de helicóptero em São Paulo, no Brasil. O jornalista seguia no helicóptero que caiu na Rodovia Anhanguera e bateu na parte dianteira de um camião que transitava na via. O piloto também morreu. Boechat era apresentador do jornal Band e da rádio BrandNews FM, colunista da revista Isto É, tendo trabalhado em jornais como O Globo, O Dia, O Estado de S. Paulo e o Jornal do Brasil. Começou a sua carreira, nos anos 1970, no Diário de Notícias, jornal do Rio de Janeiro. Na década de 1990 trabalhou na TV Globo, onde tinha a rubrica diária Bom Dia Brasil, tendo passado igualmente pelo Jornal da Globo.

Filho de diplomata, o jornalista brasileiro, nascido na Argentina, deixou mulher e seis filhos. O desaparecimento de Boechat, que ganhou três vezes o Prémio Esso, um dos principais do jornalismo, causou comoção entre jornalistas, políticos e personalidades de várias outras áreas. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, assinalou a "amizade de 30 anos" que tinha com Ricardo Boechat e indicou que o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, representará o governo no funeral do jornalista.

"Não [tínhamos] amizade de tomar cerveja, bater um papo, ir no futebol. [Tínhamos] uma amizade jornalística, passamos muitos momentos juntos, por vezes [eu] sendo obviamente contrariado por ele, [mas] na maioria das vezes sendo elogiado. Então morre comigo um pedaço de Boechat", afirmou Bolsonaro. E acrescentou: "De vez em quando [Boechat] falava nos programas dele do apelido "Jacaré", porque ele gostava de falar, vivia de boca aberta, no bom sentido, e eu botei esse apelido nele, que marcou um pouco da história dele principalmente pelo jeito que ele divulgava isso nos microfones".

Bolsonaro falava em direto do hospital Albert Einstein, onde tem estado internado após nova cirurgia, por causa da facada que recebeu no ataque de setembro do ano passado. Antes de vencer a segunda volta das presidenciais. O chefe do Estado brasileiro teve alta dos cuidados semi-intensivos, após melhoria do quadro clínico, encontrando-se agora num dos apartamentos afetos ao hospital.

Apesar dos elogios, não se pense que Boechat poupava o agora presidente brasileiro a críticas. Em abril de 2016, depois da votação do impeachment de Dilma Rousseff na câmara dos Deputados, o jornalista criticou o discurso saudoso à ditadura do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra feito por Bolsonaro. "Registe-se a infinita capacidade do deputado Jair Bolsonaro de atrair para si os holofotes falando barbaridades sucessivamente (...) Torturadores não têm ideologia. Torturadores não têm lado. Não são contra ou pró-impeachment. Torturadores são apenas torturadores. É o tipo humano mais baixo que a natureza pode conceber. São covardes, são assassinos e não mereceriam, em momento algum, serem citados como exemplo. Muito menos numa casa Legislativa que carrega o apelido de casa do povo".

Também o vice-presidente do Brasil, general Hamilton Mourão, manifestou as suas condolências através do Twitter: "Manifesto os meus sentimentos às famílias de #RicardoBoechat e do piloto do helicóptero, aos profissionais da Rede Bandeirantes, rádio e televisão, extensivos à classe jornalística, pela triste notícia do acidente que os vitimou. Deus no comando".

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Adriano Moreira

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Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.