"A Irlanda está preparada para o pior mas trabalha para o melhor"

Para a ministra dos Assuntos Europeus Helen McEntee, a Irlanda passou por reformas sociais que fazem dela uma sociedade mais aberta e preocupada. Quanto à descriminalização do aborto, votada há 3 semanas, diz não significar perda de influência da religião.

Em Lisboa para um encontro com a secretária de Estado Ana Paula Zacarias, a ministra dos Assuntos Europeus irlandesa, Helen McEntee, fala ao DN sobre a necessidade de manter "invisível" a fronteira com a Irlanda do Norte depois da saída do Reino Unido da União Europeia.

A fronteira irlandesa é o maior obstáculo ao acordo do brexit, acredita que se vai resolver da melhor forma para todos?

Espero que sim. E claro que estamos a trabalhar nesse sentido. A questão da fronteira irlandesa é um desafio porque, em si, é um assunto complexo. Estamos a falar de uma fronteira essencialmente invisível. Temos 500 quilómetros de terra com uns 208 pontos de passagem. A única razão para esta fronteira ser invisível é a Irlanda do Norte e a Irlanda fazerem ambas parte do mercado comum e da união aduaneira devido à sua pertença à União Europeia. Temos de trabalhar em conjunto para resolver os desafios. É muito importante que o governo britânico tenha dito desde o início que quer evitar uma fronteira rígida [hard border], comprometendo-se a evitar quaisquer controlos, barreiras ou tarifas. E estão empenhados em respeitar o processo de paz de que são uma parte fundamental.

Vinte anos depois de ter sido assinado, diria que o Acordo de Sexta-Feira Santa está em risco?

Diria que é frágil. Quando vamos à Irlanda do Norte e vemos crianças ainda em escolas separadas, vemos comunidades a viver separadas, vemos os fundos europeus a apoiarem organizações que só agora estão a trabalhar com comunidades que começam a lidar com o que aconteceu, só nessa altura percebemos como o acordo é frágil. E como um regresso a uma fronteira física pode ter impacto na vida das pessoas. É muito importante que não permitamos que isso aconteça. O que temos de fazer é trabalhar para uma solução. Antes do Natal concordámos na forma de alcançar essa solução. Mas desde então obviamente o Reino Unido e a UE têm tido visões diferentes sobre a forma como esse acordo se pode transferir para o papel, num texto funcional e legalmente operacional. O que temos de fazer antes de outubro é acordar essa forma de transferência do acordo. Temos alguns encontros agendados para a próxima semana, temos dito de forma consistente que queremos ver progressos antes do verão. Infelizmente parece cada vez menos provável que isso aconteça. O tempo não está do nosso lado, se o Reino Unido quer mesmo sair em março do próximo ano. Eles têm pela frente um longo processo no parlamento e os outros Estados-membros também terão de avançar com o processo nos seus parlamentos.

Dublin está preparada todos os cenários, até o pior?

Estamos preparados para todos os cenários desde o primeiro dia. O nosso primeiro-ministro na altura, Enda Kenny, criou um grupo transpartidário e transministerial para olhar para o que cada departamento tinha de fazer. Cada sector tem entretanto analisado as suas necessidades em todos os cenários - do melhor ao pior. Têm estado a avaliar o que precisam se houver mudanças nas regulações, nos apoios financeiros, na legislação, etc Estamos preparados para o pior mas a trabalhar politicamente para o melhor [cenário do brexit]. É assim que temos de abordar a questão.

A reunificação da Irlanda está a ganhar apoios segundo as últimas sondagens. É uma opção em cima da mesa?

Para o governo irlandês, não. E sim, as sondagens reveladas no fim de semana mostram um maior apoio por parte dos habitantes da Irlanda do Norte à reunificação. Se houvesse nova votação no Norte sobre o brexit, um número muito mais elevados de pessoas votaria pela permanência. Mas para nós na Irlanda a reunificação não está na agenda. O foco é o brexit e conseguir o melhor acordo possível para os nossos cidadãos, no Norte e no Sul. Um dos grandes desafios é que não temos um governo funcional na Irlanda do Norte e isso já dura há algum tempo.

A sociedade irlandesa mudou muito nos últimos anos. Têm uma primeiro-ministro jovem, de ascendência indiana e assumidamente gay. Aprovou o casamento gay e há três semanas legalizou o aborto. A velha Irlanda muito católica já não existe?

A Irlanda está claramente a mudar. E fez várias reformas sociais nos últimos 20 anos. Primeiro permitiu o divórcio, há três anos o casamento entre pessoas do mesmo sexo, agora o referendo para descriminalizar o aborto. O que mostra que somos uma sociedade moderna, aberta, que se preocupa e ouve as necessidades dos cidadãos. O referendo do aborto surgiu na sequência da criação de uma Assembleia de Cidadãos. Esta junta pessoas de todas as origens e idades e pergunta o que querem que o governo trate, o que querem ver mudado na Constituição. É uma ferramenta muito prática. Eu, pessoalmente, fiquei muito feliz com o resultado do referendo ao aborto. Era uma mudança necessária. Mas não acho que signifique que a crença das pessoas está a mudar ou que a religião tenha desaparecido na Irlanda. Ainda há um sentido religioso forte nas comunidades.

Na Europa, o brexit não é o único desafio. Os refugiados são outro. Qual a posição da Irlanda sobre as novas propostas para os travar antes de chegarem à Europa?

Compreendemos que estamos no extremo mais afastado do problema devido à nossa posição geográfica. Também pelo nosso tamanho e falta de capacidade para dar o apoio necessário a milhões de pessoas que têm chegado aos Estados-membros maiores da UE, os que têm sofrido um impacto maior. Mas queremos ver cooperação e solidariedade entre Estados-membros em apoio aos mais afetados. Temos uma voz em Bruxelas e temos de a usar para ter impacto. Além disso a Irlanda tem uma longa tradição de manutenção de paz que nos orgulha. A nossa marinha tem estado a dar apoio no Mediterrâneo e esperamos poder continuar a fazê-lo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...