A importância de se chamar Macedónia. Atenas e Skopje mais perto de um acordo

Disputa entre Grécia a FYROM já tem mais de 25 anos, mas Alexis Tsipras acredita que poderá ficar resolvida no primeiro semestre do ano. Macedónios já deram um sinal de boa vontade ao mudar o nome do aeroporto da capital

No final de janeiro, o primeiro-ministro da Antiga República Jugoslava da Macedónia (FYROM, na sigla em inglês), Zoran Zaev, esteve reunido mais de três horas em Davos, à margem do Fórum Económico Mundial, com o homólogo grego, Alexis Tsipras, para tentar resolver a disputa entre os dois países sobre o uso do nome Macedónia, que dura há mais de um quarto de século e que nas últimas semanas já deu manifestações e até ameaças de morte.

Do encontro em Davos não saiu um acordo, mas foi dado mais um passo para um entendimento, que os dirigentes dos dois países dizem estar mais perto do que nunca. Zaev anunciou ter aceitado as exigências de Atenas de alterar o nome do aeroporto de Skopje, a capital, e de uma autoestrada, infraestruturas que se chamam Alexandre, o Grande. "Isto serve para demonstrar na prática que estamos profundamente empenhados em encontrar uma solução", disse o líder do governo macedónio, acrescentando que esta decisão "mostra a nossa boa vontade, prova que não temos aspirações territoriais sobre o nosso vizinho". O aeroporto ostentará o nome da cidade e a autoestrada passará a ser Estrada Nacional da Amizade.

Tsipras, que já admitiu que este contencioso poderá ficar resolvido no primeiro semestre do ano, defendeu que a solução tem de passar por "um nome composto para todos os usos" se Skopje tenciona aderir à NATO e adiantou que o Parlamento grego ratificará um acordo de associação da União Europeia com a FYROM. "Temos ambos o desejo de abordar as nossas diferenças de forma realista e responsável", disse Tsipras em Davos , chamando a atenção para a necessidade de atacar o "irredentismo em todas as suas formas". Os dois líderes têm estado a trabalhar num novo nome para a FYROM (ou Skopje, como os gregos se referem ao seu vizinho do norte) e as propostas em cima da mesa vão desde Nova Macedónia, Macedónia do Norte ou até Vardar Macedónia (rio que atravessa os dois países).

"É muito difícil prever um acordo em 2018. Acredito que Tsipras deseja sinceramente obter um acordo, não menos importante porque ele pode aumentar seu perfil internacional entre os parceiros da Grécia. Mas ele corre o risco de uma grande repercussão política a nível interno, o que pode beneficiar a oposição conservadora. A minha previsão é que ele continuará empenhado em negociar, esperando que o processo chegue a um impasse ao nível tecnocrático e, de preferência, devido à intransigência de Skopje", explicou ao DN Angelos-Stylianos Chryssogelos, professor de Relações Internacionais e Política do King"s College de Londres.

A Grécia, que tem uma região no norte do país chamada Macedónia, tem mostrado objeções ao nome do seu vizinho desde que o pequeno estado dos Balcãs de separou da Jugoslávia em 1991. Atenas alega que o uso do mesmo nome, a par de alguns artigos da Constituição da FYROM, abre a porta para que Skopje reclame parte do território helénico.

Muitos gregos sentem que não pode existir um acordo entre os dois países que envolva o uso do nome Macedónia, que é também o nome do antigo reino governado por Alexandre, o Grande e uma parte da herança do país. Sinal disso são as duas grandes manifestações, uma em Salonica (a maior cidade da região grega da Macedónia) e outra em Atenas, que tiveram lugar nas últimas semanas contra um eventual acordo. Mas também a carta enviada há uma semana ao ministro dos Negócios Estrangeiros grego, Nikos Kotzias, e que dizia que existiam "três balas" com o nome dele - as autoridades acreditam que a ameaça está ligada à disputa.

Devido às objeções de Atenas, o país dos Balcãs foi admitido na ONU (que tem um enviado especial para este impasse desde 1994, o americano Matthew Nimetz) sob a designação provisória de Antiga República Jugoslava da Macedónia em 1993 e que é até hoje o seu nome oficial internacionalmente. Esta disputa tem sido também um entrave à entrada da FYROM na União Europeia e NATO, instituições que nas últimas semanas apelaram à resolução do conflito.

"As objeções gregas são uma mistura de diplomacia/geopolítica e opinião pública/identidade. Normalmente quando temas de política externa misturam estas duas dimensões é muito difícil chegar a um acordo. É importante sublinhar, no entanto, que as preocupações e intransigência da Grécia são espelhadas pela opinião pública na FYROM também. Em última análise, os principais passos devem ser tomados pela FYROM, uma vez que é ela que deseja entrar urgentemente na NATO e na UE. Neste sentido, e apesar das pressões internacionais para uma solução, é a Grécia que mais se pode dar ao luxo de esperar", disse o mesmo especialista.

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