A estrela do futebol que se impôs a missão de reconstruir a Libéria

Melhor jogador do mundo em 1995, George Weah chega, aos 51 anos, ao poder num país onde quase tudo está por fazer. Toma hoje posse como presidente da Libéria.

A sua popularidade é hoje tremenda na Libéria, como o foi no passado. Os motivos é que são distintos. Mas agora, como então, as expectativas são muito elevadas. Há mais de 20 anos, George Weah não podia desiludir os adeptos dos grandes clubes em que foi ponta-de-lança, como o AC Milan. Hoje tem de corresponder à esperança que milhões de liberianos depositam nele - o que lhe permitiu a vitória na segunda volta das presidenciais de 26 de dezembro, com 61,5% dos votos. O seu adversário, o vice-presidente cessante Joseph Boakai, teve 38,5%.

George Weah, de 51 anos, toma hoje posse numa atmosfera eufórica e de elevada expectativa, especialmente entre os mais desfavorecidos deste país, onde mais de 60% vivem abaixo do limiar de pobreza. Ele próprio nasceu numa família carenciada e foi educado por uma avó que vivia no subúrbio mais pobre da capital, Monróvia, Clara Town. Este facto e também o de a sua família ser considerada "nativa" - não descendente dos escravos libertados nos EUA que fundaram a Libéria em 1847 - ajudam a explicar uma popularidade que se deve também ao estatuto de estrela do futebol de que goza. George Weah foi o "jogador africano do século XX", segundo a FIFA, e o único deste continente a ganhar a Bola de Ouro, em 1995, ano em que foi também considerado o melhor jogador do mundo.

No ano seguinte, foi detido pela PSP do Porto no antigo Estádio das Antas, depois de ter partido o nariz ao antigo capitão do FC Porto Jorge Costa, no final do jogo contra o AC Milan, na fase de grupos da Liga dos Campeões. George Weah justificou a sua atitude com comentários racistas que Jorge Costa lhe terá dirigido. Posteriormente pediu desculpas ao português, que na altura era defesa central do FC Porto.

Uma outra componente que explica a sua popularidade é um programa eleitoral que críticos, mas também analistas internacionais, classificaram como um repositório de boas intenções, com as quais é impossível não concordar, mas em que é evidente a falta de medidas concretas.

A eleição de George Weah marca uma rutura na política liberiana, dominada pelos descendentes dos escravos americanos desde a independência. Estes, aliás, nunca se misturaram com as etnias locais e aquela a que pertence o antigo futebolista, os krou, estiveram em conflito com os recém-chegados ao longo do século XIX.

O sucesso político de George Weah não está isento de alguma controvérsia. Além de uma acusação que lhe é dirigida desde que se candidatou à presidência pela primeira vez, em 2005, e que é a falta de habilitações académicas, a escolha do nome para vice-presidente provocou fortes críticas. Weah nomeou Jewel Howard-Taylor, a ex-mulher de Charles Taylor, presidente da Libéria entre 1997 e 2003, condenado pela justiça internacional a 50 anos de prisão por crimes de guerra e contra a humanidade na vizinha Serra Leoa.

Quando foi confrontado com as razões da escolha de Jewel, Weah respondeu que ela é uma "pessoa capaz, qualificada, amada por todos", dizendo que não tem quaisquer contactos com Charles Taylor e que acha "muito positivo ter uma mulher como vice". Os críticos recordam que na época em que Taylor foi presidente (e era ainda casado com Jewel), Weah declarou que nunca regressaria ao país enquanto aquele estivesse no poder e "não querer nada com essas pessoas", referência ao casal.

As controvérsias não impedem que os partidários de Weah, a quem chamam "Mister George", garantam que este cumprirá as promessas feitas durante a campanha e que irá mudar a Libéria. E quase tudo precisa de ser mudado. Além do grande número de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza, mais de 30% sofrem de subnutrição crónica e mais de 60% da população em idade escolar não contempla sequer a educação básica.

A este quadro vieram somar-se os efeitos da epidemia de ébola, nos anos de 2014 e 2015, que paralisou a recuperação económica durante este período, situação ainda mais agravada pela queda dos preços em matérias-primas em que a Libéria assenta as exportações. O desafio para George Weah não é pequeno.

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