A esquerda latino-americana face à incógnita vinda dos EUA

Sucesso da presidência de Donald Trump pode significar a ruína da região, favorecendo um discurso mais radical e travando a queda da "maré vermelha". Eleições vão ser termómetro.

Após mais de uma década em que a esquerda praticamente dominou o mapa político latino-americano, os últimos dois anos ficaram marcados pelos escândalos de corrupção ou abuso de poder que resultaram na diminuição dessa "maré vermelha". Os sucessos, facilitados pelo auge dos mercados de matérias primas que financiaram os programas sociais que beneficiaram milhões, foram abafados pela contestação social quando a crise chegou. Mas será este o fim da esquerda latino-americana? Paradoxalmente, Donald Trump pode ser o balão de oxigénio para a recuperação desta.

"Com Trump tudo é incerteza. A única certeza é instabilidade e turbulência", diz ao DN o investigador principal no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Andrés Malamud. Admitindo que há coisas no novo presidente norte-americano que agradam à esquerda - como a incorreção política ou o protecionismo - o professor argentino explica como, a longo prazo, o sucesso de Trump nos EUA vai arrastar a região para a crise. "O crescimento a curto prazo dos EUA é a ruína médio prazo da América Latina", conta, falando de como o consumo interno será inflacionado com a emissão de dólares. O que fará aumentar as taxas de juro e prejudicar os países latino-americanos que têm que se endividar. "Isso pode beneficiar a esquerda dentro de alguns anos", conta, caso consigam alimentar-se da eventual má gestão dos governos de direita por causa de Trump.

Além da questão económica, há a "radicalização do discurso", como aconteceu durante o mandato de George W. Bush na Casa Branca - a quem o então presidente venezuelano Hugo Chávez apelidava de diabo. "Não estranharia que no México, por exemplo, começasse um discurso antiamericano profundo", refere o professor e investigador do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, Luis Fretes Carreras, falando numa reação à construção do muro prometido por Trump. Esse tipo de discurso não é novo, explica o ex-embaixador do Paraguai em Portugal, mas diminuíra nos últimos 30 anos face à grande aproximação entre os dois países para encontrar uma relação de benefício mútuo. "Contudo, o muro pode incentivar posições mais favoráveis da população a propostas radicais que venham da esquerda." O teste será já a 4 de julho, com eleições em quatro estados mexicanos, que podem ser um termómetro para os candidatos da esquerda antes das presidenciais e legislativas de 2018.

O próximo ano será o grande ano eleitoral na região, com presidenciais não só no México, mas também no Brasil, Venezuela, Colômbia, Paraguai e Cuba (com a anunciada saída de Raúl Castro). Em 2017, caberá aos equatorianos, chilenos e hondurenhos escolher novos líderes (ver texto abaixo), mas há outros escrutínios que servirão para medir forças. Na Argentina, renova-se em outubro um terço do Senado e metade do Congresso. O presidente Maurício Macri governa em "microminoria", lembra Malamud, e precisa ter um bom resultado ou arrisca acabar como os outros dois líderes não peronistas que estiveram na Casa Rosada - derrubado pelos protestos populares.

Nesta visão simplista de esquerda e direita é necessário lembrar que não há apenas uma esquerda na América Latina. Há desde os projetos mais radicais, como na Venezuela de Chávez e de Nicolás Maduro, aos mais moderados, profundamente republicanos, como no Chile ou Uruguai. E há esquerdas que se chegam ao centro e até a direita (nomeadamente nas políticas económicas) para ter sucesso, com Malamud a lembrar que foi a que soube fazer coligações a mais bem sucedida. Para o investigador argentino, a recuperação da esquerda latino-americana depende de dois pequenos países: Bolívia e Equador. "São países onde a esquerda não fez desastres, pelo contrário. Se se conseguirem manter acima da água a nível económico, é sinal de que o problema não foi da esquerda, foi de algumas esquerdas. Foi de Chávez", explica. Por outro lado, afirma Fretes Carreras, "hoje, como nunca, o discurso da esquerda, da justiça social, igualdade, equidade social, é um discurso que está permeado em todos os partidos, até na direita". Para o professor e investigador, o problema passa também por a esquerda ter perdido a batalha das ideias. "Historicamente, a luta da esquerda foi romântica, pela igualdade social, pelos processos revolucionários para transformar os processos produtivos. Contudo, quando assumiram os governos, as ideias que levavam nunca se puderam cumprir, materializar", refere. Por outro lado, as ideias não podem estar separadas da ação, explica, elogiando Correa por dar o exemplo à esquerda latino-americana e não procurar a recandidatura no próximo mês. "O que existe é gente que se quer perpetuar no poder ou quer alterar a normativa para continuar no governo", diz, explicando como também os escândalos de corrupção "marcaram a desconfiança na convicção da esquerda nos seus projetos".

Eleições

Rafael Correa sai e sucessor é favorito

Será o seu antigo vice-presidente, Lenín Moreno, o candidato da Aliança País (esquerda), que apesar do desgaste do governo tem a seu favor a divisão na oposição. Na última sondagem, Moreno (paraplégico desde 1998 após ter sido atingido a tiro num assalto) tinha 37% das intenções de voto. Guillermo Lasso (do movimento Criando Oportunidades, centro-direita) tem 17% e Cynthia Viteri (Partido Social Cristão, direita) tem 14 %.

O duelo entre dois ex-presidentes

No Chile, os presidentes não podem cumprir dois mandatos consecutivos, mas nada os impede de voltar a tentar quatro anos depois. Foi o que fez a socialista Michelle Bachelet. A 19 de novembro espera-se um duelo entre dois antigos chefes de Estado para lhe suceder (as primárias são só a 2 de julho): o favorito é Sebastián Piñera (2010-2014) pela coligação de centro-direita Chile Vamos. Pela Nova Maioria, que elegeu Bachelet, o candidato deverá ser Ricardo Lagos (2000-2006). Mas o senador Alejandro Guillier, do Partido Radical Social-Democrata, pode ser a surpresa da esquerda.

Juan Hernández favorito à reeleição

Em 2015, o Supremo Tribunal das Honduras deu luz verde à da reeleição presidencial, abrindo caminho para que o atual mandatário, Juan Orlando Hernández, do Partido Nacional (conservador), possa ser candidato a 26 de novembro. Parece quase certo que conseguirá ganhar as primárias de março. À esquerda, tudo apontava para uma nova candidatura de Xiomara Castro, mulher do ex-presidente deposto Manuel Zelaya, derrotada em 2013. Mas foi entretanto anunciada uma aliança da oposição e o candidato poderá acabar por ser Salvador Nasralla, líder do Partido Anticorrupção (centro).

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