A divisão da esquerda que permite que Rajoy vá reinando

PSOE e Podemos afogam-se em conflitos internos. Analistas acreditam que a fatura das guerrilhas será paga nas urnas

Já passaram mais de nove meses desde as primeiras eleições em Espanha, mas o governo continua por parir. A esta indefinição política, junta-se agora uma cada vez mais nítida crise na esquerda, marcada por guerrilhas internas no PSOE e no Podemos.

Ao mesmo tempo, em França, François Hollande aparece esmagado nas sondagens e ganha consistência o cenário de uma segunda volta nas presidenciais do próximo ano entre Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, e um outro candidato da direita. Em Itália, Matteo Renzi sofreu uma pesada derrota nas autárquicas e vê o seu Partido Democrático praticamente empatado nas intenções de voto com os populistas do Movimento 5 Estrelas. Em Portugal, António Costa arranjou uma "geringonça", formou um governo do PS e agora as sondagens sorriem-lhe. O que se passa com a esquerda no sul da Europa? Uma crise instalada com uma exceção chamada Portugal?

"A esquerda na Europa, apesar de um ténue ressurgimento no final da década de 90, está em crise desde o fim dos anos 80", defende Filipe Vasconcelos Romão, professor de Relações Internacionais e doutorado pela Universidade de Coimbra. "A esquerda foi a primeira a cair, mas a seguir será a direita", acrescenta o politólogo. Para Vasconcelos Romão a Europa enfrenta atualmente uma crise do bloco central, "dos partidos que estiveram na linha da frente da construção do projeto europeu, sejam eles de centro-esquerda ou de centro-direita". Tudo porque, na opinião do analista, não souberam gerir as mudanças, continuam assentes em estruturas arcaicas e não conseguiram responder a fatores como o envelhecimento da população, que veio alterar as regras do jogo e pôr em causa muitos dos dados adquiridos do estado social.

Estica a corda no PSOE

Em Espanha, no próximo sábado, o PSOE reúne-se em Comité Federal num momento em que o secretário-geral dos socialistas entrou em rota de colisão com os barões do partido. "Pedro Sánchez quer ser investido com os votos do Podemos e dos partidos nacionalistas. Perante a resistência dos líderes territoriais, fará um ultimato: ou apoiam a sua decisão de tentar formar um governo alternativo ou os militantes do partido serão chamados a dizer se preferem outro secretário-geral", explica ao DN Cristóbal Herrera, analista e politólogo da empresa de consultoria Llorente y Cuenca.

Se a corda romper e o PSOE avançar para diretas (23 de outubro), a probabilidade de Sánchez sair vencedor é grande, mesmo que os críticos arranjem um candidato para fazer-lhe frente. "Neste momento ainda há uma coincidência de posições entre Pedro Sánchez e os militantes, as bases, que são sempre os mais fanáticos", explica Vasconcelos Romão. Nesse sentido, para o analista português, o cenário de diretas favorece Sánchez.

Cristóbal Herrera partilha da mesma opinião. "É muito provável que saia vitorioso. Conhece muito bem os mecanismos internos do partido e sabe como utilizá-los", sublinha o politólogo espanhol. Um possível adversário de Sánchez nas diretas ficaria, segundo Herrera, numa posição bastante complicada: "Dizendo que optaria pela abstenção numa investidura de Rajoy dificilmente conseguiria o apoio da militância". Muito se tem falado sobre a hipótese de Susana Díaz, presidente da Andaluzia e uma das vozes mais críticas da atual direção, avançar para a corrida à liderança. Mas Herrera duvida dessa hipótese. "Agora está bem posicionada como líder de uma das regiões mais importantes. Ao apresentar-se a eleições perderia essa posição privilegiada", explica.

No caso de Espanha voltar às urnas, Vasconcelos Romão vaticina uma implosão do PSOE. "É verdade que ainda existe uma coincidência de posições entre Sánchez e os militantes, mas isso já não se verifica se pensarmos nos eleitores. Grande parte do eleitorado socialista já diz que é melhor um governo de Rajoy do que insistir no impasse". Cristóbal Herrera também não duvida de que o PSOE acabará por pagar nas urnas a fatura do ambiente de guerrilha. "Uma manifesta divisão interna baixa as expectativas eleitorais de qualquer partido", conclui.

Apesar de tudo, Vasconcelos Romão ainda não dá como um dado adquirido que o país caminha inevitavelmente para terceiras eleições. "Julgo que entre o Comité Federal e o congresso do PSOE alguma coisa irá acontecer. No limite, os partidos são racionais e nesta altura o menos mau para os socialistas é viabilizar o governo de Rajoy ", defende o especialista em relações internacionais.

"Não deixa de ser estranhíssimo que Rajoy, que é talvez o pior dos presidentes da Espanha democrática, surja como a única figura institucional do país. A estratégia de fazer-se de morto está a compensar", acrescenta Vasconcelos Romão.

"Com o aparecimento do Podemos passou a ser muito difícil que um partido de esquerda possa vencer eleições legislativas. Além disso, o discurso radical do Podemos agita especialmente o eleitorado mais conservador do Partido Popular", comenta Herrera. Estas são duas das razões para que, apesar de todos os escândalos de corrupção, Mariano Rajoy, líder do PP, continue a liderar todas as sondagens.

Por outro lado, o Podemos também vive um clima de tensão interna, dividido entre os partidários do atual líder, Pablo Iglesias, e os seguidores do número dois, Íñigo Errejón. Herrera, no entanto, não acredita que esteja para breve um golpe interno: "As diferenças de estratégia são profundas, mas não creio que levem a essa situação. Iglesias, enquanto líder, não está em questão. E se o Podemos entrar no governo a sua posição ficará ainda mais forte".

Sánchez tentará formar governo. Mas não lhe será fácil seguir o exemplo de António Costa e tirar uma geringonça da cartola. "A posição de força do PS em Portugal não era comparável. Contava com muitos mais deputados do que os seus aliados [PS 86, Bloco de Esquerda 19 e CDU 17]. Em Espanha, o PSOE tem 85 e o Podemos 71", explica Herrera.

O analista espanhol avança ainda com uma segunda diferença na comparação entre os dois países: "Em Espanha a questão territorial é muito relevante, principalmente no PSOE. O poder que têm as comunidades autónomas leva a que os presidentes regionais tenham muita capacidade de ação, fazendo com que seja mais difícil a construção de uma liderança".

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