"A crise dos refugiados não é só uma crise do Mediterrâneo"

Miguel García-Herraiz, vice-secretário-geral da União para o Mediterrâneo, considera fulcral promover diálogo e apoiar projetos que visem estabilidade e desenvolvimento na região. Esteve em Lisboa a 11 de outubro para participar no seminário "Desafios futuros na região euro-mediterrânica", organizado pela secretaria de Estado dos Assuntos Europeus no âmbito daquilo que é o grupo informal de sete países-membros da UE da zona do Mediterrâneo (Med7).

A União para o Mediterrâneo (UPM) foi lançada em 2008 como uma grande iniciativa, impulsionada pelo então presidente francês Nicolas Sarkozy. Mas hoje parece não ter tanta visibilidade como seria de esperar. Porque acha que isso acontece?

Quero começar por dizer que me alegro com o compromisso de Portugal com a UPM. A visibilidade junto da opinião pública talvez tenha de ser trabalhada. Mas creio que estamos a ter cada vez mais visibilidade entre os governos que são membros da UPM. A organização vai-se consolidando e mostrando a capacidade que tem para organizar políticas comuns, um quadro de entendimento entre os países do Norte e do Sul do Mediterrâneo. A visibilidade e o impacto da organização vão aumentando.

Na região do Mediterrâneo há uma crise muito grande que é a dos refugiados. Quando olhamos para ela e para a forma como é gerida não vemos, por exemplo, aí um papel para a UPM...

Desde logo porque o mandato da UPM está destinado a estabelecer uma plataforma de diálogo e projetos de desenvolvimento comum. O nosso trabalho a médio e longo prazo é o de criar as condições de desenvolvimento nos países do Sul e do Norte do Mediterrâneo. Projetos de investimento, que podem ser, por exemplo, projetos como o do lago Bizerta, na Tunísia, que combina meio ambiente com turismo e recuperação urbana, mas também outros como o Med4Jobs ou iniciativas para combater as alterações climáticas e o problema da escassez da água. O papel da UPM é, a médio e longo prazo, criar condições que permitam estabilidade e desenvolvimento. Quanto ao problema imediato dos refugiados já há muitos outros fóruns dedicados a ele.

Um dos problemas que levaram à Primavera Árabe foi o desemprego entre os jovens na Tunísia. Que projetos apoiam para tentar responder a essa questão?

Temos aqueles projetos de que falei atrás na Tunísia. O que a UPM faz é servir de plataforma para os contactos entre a sociedade civil. Somos uma plataforma de governos com noção de que a nossa missão é incluir o diálogo a todos os níveis da sociedade civil. Essa é uma das vias através das quais tentamos criar ligação entre Norte e Sul e também Sul-Sul e Norte-Norte. Trocar experiências permite identificar problemas e procurar soluções que, de alguma forma, deem sentido à vivência dos jovens.

Em relação à estação de dessalinização de água na Faixa de Gaza, como é apoiar projetos num sítio que, volta e meia, é bombardeado e em que tudo fica destruído?

Esse é um projeto de longo prazo, político e financeiro. Já há exemplos de menor escala e que mostram que é possível. A UE lançou um pequeno projeto de dessalinização e que deve ser inaugurado em novembro. É semelhante ao projeto maior, destinado a 55 milhões de metros cúbicos de produção, que mostra que é possível trabalhar na Faixa de Gaza. Há vontade política e soluções técnicas. Não é fácil, mas é possível.

Muito do que se faça em Gaza depende do governo israelita...

Depende de todos os governos que estejam envolvidos. Israel tem interesse no que acontece em Gaza, mas não é o único ator. Temos de trabalhar juntos para acabar com esse problema humanitário.

Agora, no pós-Primavera Árabe, quais os principais problemas que identifica nos países do Sul do Mediterrâneo (além da Síria, que sabemos qual é)?

Em todos os países, tanto nos do Sul como nos do Norte, há a necessidade de responder às expectativas da população. A problemática é semelhante, embora os mecanismos possam ser diferentes. O que há a fazer é partilhar as lições que servem ou não servem, investindo os fundos - que não são infinitos - nos projetos de valor acrescentado.

Parece-lhe que a cooperação regional está em segundo plano, dados os problemas internos tanto dos países da UE como dos do Sul do Mediterrâneo?

Isso não é contraditório. As plataformas regionais procuram dar uma perspetiva regional para problemas de que todos sofremos. O que queremos é que as políticas comuns sejam consideradas úteis pelos Estados nacionais. Há problemas que não afetam só um país e não podem ser resolvidos apenas por um único país: é o caso da poluição do Mediterrâneo. O turismo costeiro não se pode manter a longo prazo se existir receio sobre a contaminação das águas.

Se Nicolas Sarkozy fosse o candidato da direita e vencesse as presidenciais de 2017 a UPM poderia ganhar um novo fôlego?

Nicolas Sarkozy foi quem propôs a criação desta organização, mas a França é um ator importante na UPM em todo o momento e qualquer que seja o governo. E penso que assim continuará a ser.

Em relação à nomeação de António Guterres para secretário-geral da ONU, dado o contexto atual em que vivemos, pensa que o trabalho com os refugiados pesou mais do que o argumento de ser necessário escolher uma mulher que fosse oriunda do antigo Bloco de Leste?

Como mediterrânico, congratulo-me com a escolha de Guterres. A sua nomeação tem muito que ver com a sua experiência. Mas a crise dos refugiados não é só uma crise do Mediterrâneo. Tem aí maior visibilidade. A guerra na Síria afeta a todos e é um alerta para a consciência de todos. Não é uma questão de uma coisa ser mais importante do que outra. Apenas a experiência que tem António Guterres é muito valiosa. Eu diria que é muito bem-vinda. Mas não acho que se tem de estabelecer uma hierarquia entre os problemas de uma região ou de outra.

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