A ciência de ser grego à beira-Tejo

O grego Nikolaos Papanikolaou mudou--se com a família para Lisboa em 2015. É engenheiro biomédico e investigador na Fundação Champalimaud.

Há uma coisa que não suporta em Portugal: o alho. Tirando esse detalhe, diz que adora a gastronomia, que saliva pelo cabrito de Castelo Branco e que os vinhos do Douro são aqueles que mais lhe enchem as medidas. "Estou muito feliz por cá estar e não vejo razões para ir embora. O meu único problema é que vocês põem alho em tudo", graceja, acrescentando que essa questão não é de todo significativa para que não se sinta em casa. O grego Nikolaos Papanikolaou mudou--se com a família para Lisboa em 2015. É engenheiro biomédico e investigador na Fundação Champalimaud.

Foi a crise económica na Grécia que o empurrou para fora. Inicialmente resistiu à mudança. "Achava que era minha obrigação ficar e lutar, mas depois percebi que as coisas não estavam de facto a correr bem. Estou convencido de que os problemas no meu país não serão resolvidos durante o meu tempo de vida", lamenta. A gota de água foi o referendo, em julho de 2015. Chamados às urnas, 61% dos gregos disseram que não aceitavam as condições que a troika queria impor para um novo resgate. "Percebi que não estávamos no caminho certo", explica. Nessa altura começou a sondar os vários conhecimentos que tem espalhados pelo mundo. Estava prestes a mudar-se para Nova Iorque, para um posto no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, quando o amigo Celso Matos, radiologista na Champalimaud, o desviou para Lisboa.

Portugal não era um país desconhecido para Papanikolaou. Desde 1995 que viajava até cá com frequência, quando trabalhava na Philips, na área da imagiologia. Diz que viu muitas mudanças ao longo destes mais de 20 anos. Tirando os efeitos da crise, aos seus olhos a evolução foi para melhor, principalmente fora da capital, no interior. Está convencido de que tomou a decisão correta ao mudar-se para Lisboa com a mulher e as duas filhas. A mais velha tem 17 anos e a mais nova 15. "Não houve qualquer choque civilizacional. Ao chegar não sentimos que estivéssemos no estrangeiro. No fundo, tínhamos mudado apenas de cidade."

Apesar das semelhanças, não considera que Portugal seja um país mediterrânico. "Há diferenças na mentalidade, especialmente no Norte do país. Mas os dois são países do Sul, o que significa que gostamos do bom tempo, da boa comida, do bom vinho", explica. Para Papanikolaou, os portugueses são mais humildes do que os gregos: "O que nos destruiu foi pensarmos que somos o centro do universo e o povo mais importante de todos e que todas as outras nações são inferiores."

O investigador da Fundação Champalimaud nasceu em Ptolemais, uma cidade situada na "verdadeira Macedónia". No ano de 1969. Exatamente no mesmo dia em que o norte-americano Neil Armstrong pôs o pé na Lua, a 20 de julho. "O meu pai contou-me que estava a ver na televisão a notícia do grande acontecimento enquanto estava à espera de que eu nascesse". Conta que Ptolemais é a cidade mais suja e mais poluída da Grécia. Cerca de 80% da produção elétrica do país é aí gerada, através de minas de carvão. Por isso diz que é "peculiar" que os pais - "ambos imigrantes da Ásia Menor, da Turquia" - ainda estejam vivos e de boa saúde.

Papanikolaou tem duas irmãs. Eles enveredaram pelas letras. A mais velha, Elsa, é professora de literatura francesa. A mais nova, Marina, é professora de literatura inglesa. Ele foi o único a deixar-se seduzir pelo mundo científico. "Na escola primária ficava fascinado a olhar para as estrelas. A astrofísica era a minha ideia. Mas acabei por estudar Engenharia Médica e Física", resume.

Depois da licenciatura em Atenas e de começar a trabalhar na Philips, mudou--se para Creta, onde fez o doutoramento em Medicina e estabeleceu-se como investigador. Foi de lá que a família embarcou para Lisboa. Antes da mudança para Portugal, Papanikolaou teve uma outra experiência a tempo inteiro no estrangeiro, na Holanda, mas dessa vez a mulher e as filhas ficaram em casa. O choque cultural foi muito maior do que aquele que sentiu em Portugal, em grande parte devido ao tempo. "Na Holanda tudo é em tons de cinzento. Não existem cores. Isso tem um grande impacto nos comportamentos. Torna as pessoas mais fechadas."

Na Fundação Champalimaud está a desenvolver uma nova metodologia em imagem que se chama radiomics e que é a transformação de imagens médicas em dados manejáveis. A ideia é construir algoritmos que podem ajudar os radiologistas a melhorar os diagnósticos e a antecipar, por exemplo, de que forma um paciente irá reagir à quimioterapia.

Está feliz em Lisboa. E depois da eleição de Donald Trump mais feliz ficou por não ter optado por partir para os Estados Unidos. Além disso, Portugal, sublinha com agrado, é um país muito seguro. "As minhas filhas são adolescentes e andam de Uber à noite. Na Grécia ou nos EUA jamais me passaria isso pela cabeça."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Pedro Lains

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita

Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.

Premium

Opinião

Investimento estrangeiro também é dívida

Em Abril de 2015, por ocasião do 10.º aniversário da Fundação EDP, o então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmava que Portugal "precisa de investimento externo como de pão para a boca". Não foi a primeira nem a última vez que a frase seria usada, mas naquele contexto tinha uma função evidente: justificar as privatizações realizadas nos anos precedentes, que se traduziram na perda de controlo nacional sobre grandes empresas de sectores estratégicos. A EDP é o caso mais óbvio, mas não é o único. A pergunta que ainda hoje devemos fazer é: o que ganha o país com isso?