60 anos no Tibete: entre "a separação" e "a ocupação"

Turistas estrangeiros proibidos de viajar para Tibete e atividades religiosas restringidas nas vésperas do 60.º aniversário da revolta contra autoridades chinesas em Lassa. Pequim realça desenvolvimento económico e social na região nas últimas décadas.

Março é um mês considerado sensível pelas autoridades chinesas no Tibete. Todos os anos é assim, mas ainda mais quando estamos perante aniversários redondos como os 60 anos que se assinalam este domingo, dia 10, sobre o início da revolta contra Pequim, que perdurou até 23 de março de 1959, culminando com a triunfo do Exército Popular de Libertação da China sobre os revoltosos e a fuga, dias depois, do Dalai Lama para um exílio em Dharamsala, no norte da Índia. Aí permanece com a sua base até hoje.

É uma história tumultuosa com alguns momentos de procura de diálogo, mas vários outros de tensão. Ao longo das últimas duas décadas as autoridades chinesas têm intensificado esforços para promover o crescimento e desenvolvimento da economia. Em simultâneo o número de chineses da etnia maioritária Han tem aumentado, embora representem apenas 8% da população face aos 90% de etnia tibetana a residir na Região Autónoma Tibetana. Quase metade dos 6 milhões de tibetanos vivem fora dos limites administrativos do Tibete, sobretudo nas 10 prefeituras autónomas tibetanas nas províncias chinesas de Gansu, Sichuan e Qinghai.

60 anos de "separação"
O dia 10 de março é assinalado por comunidades tibetanas na diáspora, através de marchas, memoriais e vigílias. O chefe do autoproclamado governo tibetano no exílio, Lobsang Sangay, está esta semana em Praga, República Checa, para participar em eventos de apoio ao movimento independentista tibetano.


"São 60 anos de ocupação mas também 60 anos de separação. O meu pai veio do Tibete tal como a minha mãe e durante muito tempo não puderam encontrar-se com os os seus irmãos, vários dos quais acabaram por morrer antes desse encontro", disse Lobsang Sangay numa entrevista a uma rádio checa. O movimento tibetano anti-China na diáspora acusa Pequim de suprimir a cultura, língua e religião - o Budismo Tibetano - da comunidade tibetana que vive na China.

Uma visão diametralmente oposta têm as autoridades chinesas em Pequim e na região. Ao invés de ocupação, o Governo Central considera que o que sucedeu em 1959 foi um movimento de libertação dos tibetanos do feudalismo e servidão em que se encontravam. As autoridades salientam que os tibetanos têm colhido os frutos do crescimento económico.

Tibetanos "agradecidos"
O jornal oficial de língua inglesa China Daily publicou esta semana entrevistas com ex-servos libertados com o fim do sistema feudal, ao mesmo tempo que dava conta do aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho e do seu aumento de rendimentos.

Também esta semana, durante a reunião anual em Pequim do Parlamento chinês - a Assembleia Popular Nacional - o líder do Partido Comunista da China no Tibete, Wu Yingjie, afirmou que "desde que fugiu o Dalai Lama não fez nada de bom para o povo tibetano", acrescentando que "as pessoas no Tibete têm sentido de gratidão nos seus corações e estão agradecidas ao Partido Comunista por lhes proporcionar uma vida feliz".

Tal como tem sucedido nos últimos anos, as autoridades chinesas impuseram restrições à entrada de turistas estrangeiros nas semanas que antecedem os aniversários "sensíveis". Segundo a agência noticiosa Associated Press desde o início de fevereiro que agências de viagem indicam que não seria concedido visto a turistas estrangeiros até 1 de abril.

A este propósito, Wu Yingjie afirmou que o Tibete continua a dar as boas vindas a estrangeiros, mas foi necessário adotar algumas restrições de modo a garantir a segurança dos turistas e porque alguns visitantes sofreram de ""doença da altitude".

"Após considerarmos as condições geográficas e climatéricas específicas do Tibete, adotámos uma série de medidas relativamente à entrada de estrangeiros no Tibete de acordo com a lei", disse.

Para um turista estrangeiro entrar no Tibete precisa de obter um visto especial, o que normalmente é concedido na medida em que o façam via agências de viagens devidamente autorizas. Contudo, é bastante mais difícil o acesso a jornalistas e diplomatas estrangeiros.

Atividades religiosas restringidas

Entretanto, as atividades religiosas também foram reduzidas nos últimos dias na capital do Tibete. Isso mesmo foi confirmado pelo presidente da câmara municipal de Lassa, Go Khok, também durante as reuniões em Pequim.

Em declarações ao jornal de Hong Kong, South China Morning Post, a poetiza tibetana Tsering Woeser, a residir em Pequim, disse que "membros do Partido reformados, funcionários públicos e estudantes estão proibidos de se juntarem a atividades religiosas". Em resultado disto, "o número de devotos a participar nas atividades diminuiu bastante", contudo "a fé dos jovens no Budismo Tibetano e no Dalai lama mantém-se resoluta", afirma Tsering Woeser.

Na memória está também o motim de 14 de março de 2008 que resultou em confrontos com as forças da ordem. Segundo as autoridades, cerca de 20 pessoas morreram, grande maioria civis inocentes, incluindo várias pessoas incendiadas pelos revoltosos, tendo os tumultos deixado mais de 300 civis e cerca de 240 polícias feridos. Já o "governo tibetano no exílio" falou na altura em 80 mortos.

Os tibetanos são uma das 55 minorias étnicas oficialmente reconhecidas pelo governo central chinês, beneficiando de políticas preferenciais no acesso a universidades, isenção de medidas como a Política de Um Só Filho - que esteve em vigor durante quase 40 anos - ou direito à utilização e desenvolvimento das sua língua. Todavia, no caso dos tibetanos e - mais recentemente - dos uigures têm-se feito ouvir fortes críticas por parte de organizações internacionais de defesa dos direitos humanos. No caso dos uigures em Xijiang, as autoridades chinesas são acusadas de manter contra sua vontade cerca de um milhão de pessoas dessa etnia em campos de reeducação, uma alegação negada por Pequim.

O Tibete e a República Popular da China em datas

01/10/1949 - Proclamação da República Popular da China

10/1949 - Exército Popular de Libertação da China marcha sobre o Tibete derrotando forças tibetanas

23/05/1951 - Assinatura do Acordo dos Dezassete Pontos entre líderes tibetanos e as autoridades chinesas

09/1954 - Dalai Lama vai a Pequim para participar na Assembleia Popular Nacional como deputado e encontra-se com o presidente da China Mao Zedong

10/03/1959 - Início da revolta tibetana em Lhasa contra as autoridades chinesas

23/03/1959 - Exército chinês coloca ponto final a revolta

30/03/1959 - Dalai Lama atravessa fronteira com a Índia com a ajuda de uma equipa de operações especiais da CIA e estabelece o autoproclamado "governo tibetano no exílio" em Dharamsala

1965 - Governo Central chinês cria a Região Autónoma do Tibete

1966-1976 - Revolução Cultural na China. Guardas Vermelhos encerram mosteiros

1979 - Início de diálogo com Pequim com ida de irmão do Dalai Lama para conversações com Deng Xiaoping

03/1989 - Lei Marcial imposta na sequência de motins

10/1989 - Dalai Lama recebe Prémio Nobel da Paz

08/1993 - Dalai Lama afirma que busca autonomia política e não independência

2002 - Contactos entre enviados do Dalai Lama e autoridades chinesas retomados

07/2006 - China inaugura linha de caminho de ferro Qinghai-Tibete

03/2008 - Dezenas de pessoas morrem na sequência de motins anti-China em Lassa

2011 - 12 monges tibetanos autoimolam-se em protesto contra Pequim. Dezenas de casos sucederam-se nos anos seguintes

11/2011 - Dalai Lama abandona liderança do "Governo no exílio".

*Jornalista da Plataforma Media

Ler mais

Exclusivos

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Legalização do lobbying

No dia 7 de junho foi aprovada, na Assembleia da República, a legalização do lobbying. Esta regulamentação possibilitará a participação dos cidadãos e das empresas nos processos de formação das decisões públicas, algo fundamental num Estado de direito democrático. Além dos efeitos práticos que terá o controlo desta atividade, a aprovação desta lei traz uma mensagem muito importante para a sociedade: a de que também a classe política está empenhada em aumentar a transparência e em restaurar a confiança dos cidadãos no poder político.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Erros de um sonhador

Não é um espetáculo bonito ver Vítor Constâncio contagiado pela amnésia que tem vitimado quase todos os responsáveis da banca portuguesa, chamados a prestar declarações no Parlamento. Contudo, parece-me injusto remeter aquele que foi governador do Banco de Portugal (BdP) nos anos críticos de 2000-2010 para o estatuto de cúmplice de Berardo e instrumento da maior teia de corrupção da história portuguesa, que a justiça tenta, arduamente, deslindar.