5 Estrelas e Liga: o que os une será mais forte do que o que os separa?

Partidos populistas chegaram a acordo para presidência da Câmara e do Senado. Mas líderes, Luigi Di Maio e Matteo Salvini, deixaram claro que ambos querem ser primeiro-ministro.

Em janeiro, Luigi Di Maio acusava Matteo Salvini de se "vender por um tacho qualquer". Em fevereiro, era o líder da Liga a garantir que o dirigente do Movimento 5 Estrelas é "um traidor". Palavras duras que contrastam com a entrevista de Di Maio ontem ao Corriere della Sera, na qual afirma que Salvini "mostrou ser uma pessoa que sabe manter a palavra dada". E na qual admite que o 5 Estrelas, partido mais votado nas eleições de dia 4 deste mês, "está aberto [ao diálogo] com todos para bem" de Itália. Mas se Di Maio parece abrir a porta a uma coligação de governo entre os dois partidos populistas, nada garante que consigam ultrapassar as divergências.

No sábado, 5 Estrelas e Liga deram o primeiro sinal de entendimento ao acordarem os nomes dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Após dias de negociações, acertaram eleger Roberto Fico, um peso-pesado do 5 Estrelas, para presidente da Câmara, e Elisabetta Casellati, veterana da Força Itália, para a presidência do Senado - a primeira mulher a ocupar este cargo em Itália.

Na sexta-feira, a coligação de direita - que junta a Liga de Salvini, o Força Itália de Silvio Berlusconi e os Irmãos de Itália de Giorgia Meloni, tendo obtido 37% nas eleições - esteve à beira da implosão depois de a Liga se aliar ao 5 Estrelas para rejeitar a primeira escolha do Força Itália para o Senado, levando Berlusconi a acusar Salvini de traição.

Mas uma coisa é a Câmara e o Senado, outra é o governo. E a primeira dificuldade de uma eventual coligação entre Di Maio e Salvini para um futuro executivo é saber qual dos dois o vai liderar. Na entrevista ao Corriere, o líder do 5 Estrelas recordou quem "11 milhões de italianos escolheram claramente uma força política e um candidato a primeiro-ministro". Já Salvini, depois de a Liga ter aceitado ceder a presidência de ambas as câmaras do Parlamento, escreveu no Facebook: "Por respeito por todos, o próximo primeiro-ministro só pode ser indicado pelo centro-direita, a coligação que conseguiu mais votos e que ainda [no sábado] revelou união, inteligência e respeito pelos eleitores."

Um nasceu como partido regionalista (só há pouco tirou o Norte do nome para tentar conquistar votos no resto do território) que defendia a independência do Norte de Itália, o outro surgiu em 2009 como movimento antieuro baseado na democracia direta, mas a verdade é que Liga e 5 Estrelas souberam capitalizar com o descontentamento dos italianos. Populista, a Liga não hesita em adotar um discurso mais anti-imigração, enquanto o 5 Estrelas se tem centrado no combate ao desemprego dos jovens, na redução dos impostos e no aumento de pensões e apoios sociais. Mas numa coisa estão de acordo: as regras de Bruxelas não são todas para cumprir, a começar pelo teto de 3% para o défice. E, se no passado defenderam mesmo a saída de Itália da moeda única, agora admitem não ser este o momento certo para o fazer.

Ideias estas que explicam porque uma aliança entre populistas à frente do governo de Itália é o pior pesadelo para a União Europeia. Curiosamente, os mercados parecem ainda tranquilos, enquanto decorrem as negociações. Mas, num texto hoje publicado na página 2 do DN, Wolfgang Münchau garante que os mercados estão "a cometer dois erros". O primeiro é acharem que Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, "é um garante de estabilidade até o seu mandato terminar em outubro" de 2019. O colunista do Financial Times e do Corriere della Sera "não apostaria que Draghi "viesse em auxílio de um Estado membro que desrespeitasse deliberadamente as regras orçamentais". Outro erro é acharem que "o poder instituído em Itália encontrará sempre maneira de manter os extremistas longe do poder".

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